quinta-feira, 5 de agosto de 2010

BENEFÍCIOS NA DANÇA DO VENTRE: UMA LISTA DE IN-VERDADES?


Quem não se lembra de uma lista de benefícios agregada à prática da dança do ventre? Como se fosse uma bula indicativa a informar tantos ganhos milagrosos. E que de alguma forma é incorporado ao discurso professoral na maioria das vezes que uma aluna se aproxima com a seguinte pergunta: quais os benefícios da dança?

VAMOS PARA UMA DAS POSSÍVEIS LISTINHAS...


 Desenvolve a auto-estima;
 Estimula a memória, a concentração e a atenção;
 Aumenta a confiança no seu potencial individual;
 Resgata a feminilidade;
 Ativa a circulação, aumenta os reflexos e alivia as tensões;
 Aumenta a flexibilidade e alongamento;
 Auxilia em problemas menstruais, hormonais e partos, diminuindo cólicas, equilibrando as funções sexuais e facilitando contrações e dilatações;
 Trabalha músculos, enrijecendo e tonificando;
 Atua diretamente no centro de energia do corpo, que se encontra no ventre, distribuindo a mesma de forma equilibrada.

E blá, blá, blá, blá...

Eu, particularmente adoro uma bula de remédio e me sinto muito atraída por indicativos como esses. Mas nunca pensei em reproduzir algum tipo de discurso apoiado nesses benefícios. Até porque podem se constituir in-verdades a depender de cada corpo e contexto de prática. Afinal descritos assim de forma genérica, não passam de um efeito em “suspensão” que pode ou não acontecer no corpicho. Quem saberá? Como acontecerá? Lembro-me que sempre dizia o seguinte: “na literatura está descrito que, já no meu corpo o que percebo é...”.

Assim, ao invés de reproduzir algo fora do meu corpo, sempre busquei estar atenta ao que nele acontecia. Nada mais justo usar um discurso que se apóia no conhecimento produzido no corpo e não em meia dúzia de in-verdades fora dele. (Aqui, cabe a explicação da escolha do termo in-verdade. Ou seja, uma grafia que já indica uma ambivalência contida em toda verdade enunciada. Afinal quem hoje sustenta algo como verdade absoluta? A depender do contexto, a verdade pode ser relativizada e tornar-se distinta ao que se pretendia).

Não quero com essa postagem rastrear os mitos difundidos. Fazer uma comparação prática do que a literatura descreve. Nunca fiz antes, qual o motivo de desmontar esses fetiches agora? Mas devo confessar que com a gravidez, fiquei muito curiosa com essa associação: dança do ventre x gestação. Assim como as promessas difundidas no trabalho de parto. E cada vez que vai chegando mais pertinho do nascimento da minha filha, vou me tornando meio “São Tomé de saia”, ou melhor, “de barrigão”, quero mais ver para crer. Afinal eu sempre ouvi casos de dançarinas que tiveram seus bebês como num passe de mágica, tipo: efeito pó de pirlim pim pim, olha o bebê ai gente. Chegando ao mundo escorregando igual a quiabo! Quem nunca ouviu coisas como essa?

Em meu caso, devo esperar para crer. Ainda que não seja possível, visto que por razões médicas fiz a opção de uma cesariana (com toda minha indignação!!!!). Mas quem sabe não será o meu corpicho uma prova viva de que a dança, de fato, auxilia o trabalho de parto e Maria Elisa nasça escorregando? Será?

Mas devo partilhar um ganho que não é fetiche. E se deve muito ao trabalho de fortalecimento da musculatura da lombar (quadrado lombar) no período em que me dediquei exclusivamente à dança do ventre. Pois percebi que toda a minha preocupação com o encaixe pélvico na hora da execução dos movimentos e o uso adequado da musculatura abdominal não foi em vão. Foi um serviço ao meu bem estar postural na gestação. Afinal mal tive dor lombar e estou sustentando 15 kilos a mais (minha filha é enormeeeeeeeeeeee) de forma bem suportável.

Parece que a queixa mais recorrente das gestantes: DOR LOMBAR, não encontrou abrigo no meu corpinho. Ainda que me sinta uma pata ambulante, com todo o meu eixo deslocado para frente do corpo, percebo que meu corpo guarda uma memória adquirida com a dança. E vez ou outra se auto-corrige, se alinha, se refaz. Sinceramente, só tive desconforto na lombar na época que estava finalizando o semestre do Doutorado em Sampa, justamente pelas horas destinadas em frente do computador. Entretanto agora, nessa fase final, com a sobrecarga de peso, que tenderia agravar a lombalgia, o que sinto mais são as cotoveladas e pontapés de Maria Elisa e uma leve ardor nas costelas.

De modo que, resolvi deixar esse registro aqui e escrever que o fortalecimento da musculatura lombar e a memória do alinhamento postural, é sim um ganho na dança do ventre, ainda que seu corpo passe por transformações outras e desvie do padrão adquirido com a prática. Acreditem! Esse benefício no meu corpicho se configura uma verdade construída e não descrita apenas na literatura. Por isso meninas, vamos encaixar o quadril e dançar com o abdômen para dentro. Não se esqueçam: mais a frente, uma futura gestação vai “lhe cobrar” esse ganho!

OBS: Valeu a minha paranóia de dançar com o quadril encaixado. Lembram da minha "bronca" quando percebia um bumbum desencaixado e a barriga estufada para fora? Não foi em vão....

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Miss Rodeio, Xena ou Dançarina do Ventre?



Esse figurino lhe parece familiar? Sutiã, cinturão, mangas? Pode até servir como modelito para a Dança do Ventre, digamos que... para as dançarinas que têm um gosto mais exótico. Contudo a questão que quero pensar aqui, se coloca no trânsito cultural que perpassa por áreas visivelmente distintas (A quem serve? ). Onde a figura erotizada da mulher é o assunto a ser privilegiado. E para isso não tem território particular e nem tão pouco direito de imagem como uma reserva de mercado. Tanto faz ser Miss Rodeio de Jaguariuna, Xena, Dançarina do Ventre ou Dançarina de Forró.

O passaporte em questão é "o corpicho e seu figurino" a serviço de... (podem completar com suas observações) e ponto final. Uma das hipóteses por mim levantada, se estrutura na necessidade de alimentar o mercado com as fantasias femininas que permeiam inicialmente o imaginário masculino: um corpo feminino que serve tanto a figura da dodalisca como também da "Cavaleira do Zodíaco" e que rememora a figura de Xena. Seria um CORPO MUTANTE?
Só falta agora a Miss Jaguariuna nos surpreender dançando um clássico da Dança do Ventre. Ou o mais habitual: a dançarina do ventre reduzir-se a um figurino exótico e garantir-se como uma fantasia masculina. Tornando-se cada vez mais uma tipologia corporal vendável: mutante (a serviço de muitas intenções) sem deixar de ser gostosa.
O que implica numa responsabilidade enorme para quem faz parte do campo da dança do ventre, ou seja, a responsabilidade de descolar-se cada vez mais dessas tipologias mercadológicas e comprometer-se com o objeto em questão: A DANÇA!!!!! A questão aqui imposta passa pela reflexão das escolhas feitas: dança? figurino? tipologia construída? A quem estou servindo? Justamente para que o trânsito entre essa topografia distinta (Oriente, Sertanejo e Mitologia Grega) não se sustente apenas na qualidade do figurino/embalagem do produto-corpo a ser vendido.
E que me leva a pensar em uma cena artística pouco habitual: uma dançarina do ventre se apresentando com um figurino muito simples. Será que assim deixaria de ser refém de uma embalagem? E o público começaria a prestar atenção ao que interessa? Ou os regimes de visibilidade já estão tão contaminados com estes ditames do mercado?
Para se pensar...
FOTOS:
1) Miss Jaguariuna-SP
2) XENA

domingo, 25 de julho de 2010

SOBRE AMOR, ROSAS E ESPINHOS...


SOBRE O AMOR, ROSAS E ESPINHOS...Amor que é amor dura a vida inteira. Se não durou é porque nunca foi amor.

O amor resiste à distância, ao silêncio das separações e até às traições. Sem perdão não há amor. Diga-me quem você mais perdoou na vida, e eu então saberei dizer quem você mais amou.

O amor é equação onde prevalece a multiplicação do perdão. Você o percebe no momento em que o outro fez tudo errado, e mesmo assim você olha nos olhos dele e diz: "Mesmo fazendo tudo errado eu não sei viver sem você. Eu não posso ser nem a metade do que sou se você não estiver por perto."O amor nos possibilita enxergar lugares do nosso coração que sozinhos jamais poderíamos enxergar.

O poeta soube traduzir bem quando disse: "Se eu não te amasse tanto assim, talvez perdesse os sonhos dentro de mim e vivesse na escuridão. Se eu não te amasse tanto assim talvez não visse flores por onde eu vi, dentro do meu coração!"Bonito isso. Enxergar sonhos que antes eu não saberia ver sozinho. Enxergar só porque o outro me emprestou os olhos , socorreu-me em minha cegueira. Eu possuia e não sabia. O outro me apontou, me deu a chave, me entregou a senha.

Coisas que Jesus fazia o tempo todo. Apontava jardins secretos em aparentes desertos.Na aridez do coração de Madalena, Jesus encontrou orquídeas preciosas. Fez vê-las e chamou a atenção para a necessidade de cultivá-las.Fico pensando que evangelizar talvez seja isso: descobrir jardins em lugares que consideramos impróprios.

Os jardineiros sabem disso. Amam as flores e por isso cuidam de cada detalhe, porque sabem que não há amor fora da experiência do cuidado. A cada dia, o jardineiro perdoa as suas roseiras. Sabe identificar que a ausência de flores não significa a morte absoluta, mas o repouso do preparo. Quem não souber viver o silêncio da preparação não terá o que florir depois...

Precisamos aprender isso. Olhar para aquele que nos magoou, e descobrir que as roseiras não dão flores fora do tempo, nem tampouco fora do cultivo.Se não há flores, talvez seja porque ainda não tenha chegado a hora de florir. Cada roseira tem seu estatuto, suas regras...Se não há flores, talvez seja porque até então ninguém tenha dado a atenção necessária para o cultivo daquela roseira.

A vida requer cuidado. Os amores também. Flores e espinhos são belezas que se dão juntas. Não queira uma só. Elas não sabem viver sozinhas...Quem quiser levar a rosa para sua vida, terá que saber que com ela vão inúmeros espinhos.Mas não se preocupe. A beleza da rosa vale o incômodo dos espinhos...
O que destaco aqui é a seguinte frase: "Quem não souber viver o silêncio da preparação não terá o que florir depois". É o que mais busco ultimamente: silêncio, acolhimento, tranquilidade... interiorização... para chegada de minha filha. Minha rosa. Chega de disperção. Pois vivemos num mundo que o tempo todo somos levados a disfocar, a dispersar... a se stressar com pequenas coisas e com isso, deixar de enxergar os jardins secretos no deserto. E você, o que mais gostou?

segunda-feira, 5 de julho de 2010

QUAL O FETICHE MAIS HABITUAL DO BALÉ CLÁSSICO?




Inspirada no post intitulado como – A dança do ventre. Cadê o ventre? -publicado pela minha amiga belly dance Lorena no seu Blog (An)danças de Lory (http://andancasdelory.wordpress.com/), arrisquei-me a refletir na questão-título acima.

Uma tarefa que me fez revisitar meus 13 anos de balé clássico e tirar do baú sonhos, moldes, espetáculos, falas, etc. que moldaram minha menina-bailarina. E desde que me fiz gente no balé clássico, SEMPRE, ouvi a seguinte frase: “o balé é a base de qualquer dança”. Assim como outras na mesma direção, como por exemplo: “quem faz balé pode dançar qualquer coisa”. De modo que cresci na dança com esse fetiche, como se tivesse em mãos um passaporte poderoso para o trânsito no universo da dança.

Entretanto, na prática a situação foi bem diferente, a começar pelo meu ingresso em 1995 na Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia. Onde de imediato foi desmontado esse fetiche, nas aulas de dança moderna. Nas quais a necessidade de estabelecer outro tipo de experimentação com o nível baixo, por exemplo, com as quedas e recuperações, me mostrou o quanto meu corpo não tinha disposição para tal aventura. Afinal foi montado em cima da meia-ponta ou sapatilha de ponta, dentro de uma verticalidade imposta na dança clássica. Devo confessar que sofri muito para dialogar com outras linguagens e permitir que meu corpo fosse aberto a outras línguas, sem a hegemonia do balé.

De modo que ainda fico a me perguntar o que sustenta tal fetiche? Se hoje temos uma profusão de outras experimentações na dança, abertas a diversas instruções que não sejam as hegemônicas? Uma vez que se busca localizar o processo de conhecimento e experimentação a partir da proposta artística de cada dançarino-criador-interprete, sem a imposição de senhas (técnicas pré-dadas). Tem-se uma tendência de mesclas artísticas ou não. Com as aproximações/fusões entre as instruções da dança a educação somática, técnicas circenses, lutas marciais, práticas esportivas, entre tantas outras.

O que importa é pensar qual a demanda do processo criativo? Que línguas o corpo precisa falar para dar conta da obra. Afinal cada obra fala por si. Justamente pela “necessidade” de referências situadas no contexto de criação da obra. Assim, se a lógica compositiva de determinada obra se mescla com uma tônica circense, que tipo de instrução cabe na composição? Caberia, de fato, o balé clássico? Ou a capoeira? Ou a técnica de tecido? Ou...

Qual é o ponto então?

Que não dá mais para universalizar as instruções da dança como verdades absolutas. Ainda mais quando se compreende o corpo como instância indissociável do seu ambiente. De modo que é preciso pensar o que o corpo faz com as informações que ele tem acesso? E que talvez, nem todas sejam apropriadas para o processo criativo na dança em curso.

Inquietações que me fazem refletir porque tal fetiche encontra abrigo tão estável na dança do ventre. Migração que não vem de agora e sim do período do Cabaré de madame Badiaa (ver outra postagem nesse blog– Você tem fome de quê? Em 06 de fevereiro de 2010). Que de vez em quando retorna ao mercado como uma propaganda efetiva que reforça o discurso GENERALISTA, de que o balé clássico é capaz de dar grandes contribuições para a dança do ventre. Quer uma prova? Basta ver a quantidade de cursos que surgiram nesse sentido. Lá vai... “CURSO INTENSIVO DE BALÉ CLÁSSICO PARA DANÇA DO VENTRE” (Estudo de aprimoramento de técnicas clássicas aplicadas na dança do ventre. Com os seguintes temas abordados: giros, saltos, arabesques, cambrés, resistências e execução dos passos, chasé como forma de deslocamento, etc.)

Não quero, aqui, fazer um des-serviço do balé clássico a dança do ventre. Afinal sabemos e o meu corpicho sabe, que a minha linda meia-ponta foi uma habilidade adquirida no balé clássico, assim como minha postura, facilidade para os giros e belas terminações, como as dos braços e pés (quer coisa mais feia que um pé torto na dança?). Mas... É preciso muita calma nessa hora. Pois assim como tive ganhos situados com a técnica do balé clássico e digamos essa constatação referenda o curso acima, como uma possibilidade de contribuições específicas, é preciso pontuar que também tive perdas. Ora, a primeira se configura em relação à força de gravidade (peso) necessária para execução da dança folclórica. Como executar um Baladi, que se estabelece pela relação de pertença com a terra e se utiliza do contato/peso nos pés, tendo como informação a leveza do balé? Assim como esta, muitas outras perdas somam à lista (dar uma olhadinha nas gravuras postadas a cima).

Essa breve descrição acima serve para localizar que tipo de instrução deve-se entrar em contato. E que serviço presta? Para não cair na cilada que o corpo precisa ser poliglota, ou seja, falar TODAS as línguas. E que qualquer língua/informação é bem-vinda.

É preciso aceitar o fato de que certos fetiches não são mais pertinentes – e, por extensão, demarcar quais deles são considerados escolhas/línguas/informações pelos corpos que dançam. Para quem sabe, com esse tipo de entendimento, se possa responder de forma mais tranqüila que tipo de informação está no corpo que o permitiu dançar daquele jeito? Com o intuito de desmontar discursos hierárquicos e universais, que tendem a privilegiar determinadas instruções a despeito de outras.

terça-feira, 29 de junho de 2010

O QUE FAZ VOCÊ FELIZ?


Desde que entrei num Programa de Pós-Graduação em Comunicação, digamos que... passei a ser mais crítica quanto a forma em que a mídia divulga uma informação. Perceber que discurso ideológico está por trás de uma ingênua propaganda, por exemplo. Que de ingênua, não tem nada. Se configura mesmo, como um dispositivo de captura das nossas ações, desejos e modos de ser no mundo.

É incrível perceber o modo como o campo da publicidade e propaganda tem investido pesado nas emoções do seu público-alvo. Pois, através dos estudos avançados da NEUROCIÊNCIA, se tornou incontestável a participação das emoções nas tomadas de decisão. Antes, vista como o lado "não confiável" do ser humano, hoje, as sensações sensoriais e as emoções, são necessárias para os processos de cognição. Pois não existe NADA no corpo que não passe pelo sensório-motor. Até mesmo a decisão mais RACIONAL do mundo.

Assim... vocês devem concordar comigo, no modo como o formato das propagandas hoje investem na captura da nossa subjetividade. Desde a propaganda de uma marca de margarina, de um carro, até... de supermercado.

Eu, que sou a pessoa, mais BLINDADA no que se refere aquele objeto de quatro rodas.... Ahhh, automóvel!!!! Sem desejos consumistas (do tipo: qual o carro dos seus sonhos?) e impossível de memorizar uma marca, indústria automobilística, etc. Devo confessar, que fui capturada por uma dessas últimas propagandas de carro vinculadas na TV. Sabe aquela em que o pai leva a filha para o casamento? E que ao final, ele confessa que emprestou o carro da filha? Sim... Pois, pois... eu chorei! Fiz de imediato a associação com meu pai e me detetive na propaganda, sendo capturada pela lembrança paterna. Caso contrário, seria mais uma propaganda deletada no controle remoto. Afinal, carro não faz parte da minha lista de sonhos.

E desde modo, somos capturados sem perceber.... ou mesmo percebendo.

De modo próximo... sem choro, claro, devo dizer o mesmo da propaganda de uma rede de supermercado, que lança a seguinte pergunta: O QUE FAZ VOCÊ FELIZ? Que, aqui, parabenizo pela inteligente associação de felicidade, consumo e a rede referida.

Pergunta ou dispositivo de poder (?) imposto de uma forma tão sútil, cantada na voz do nosso ex ministro Gilberto Gil, que embala os nossos desejos mais consumistas. Desde um sorvete a uma marca de shampoo ou até mesmo uma pitza "emborrachada" embalada em uma caixa de papel colorida. Tanto que ao final da propaganda, entre memórias de infância, desejos intímos, projeções futuras... Olha lá você, transportada para o SUPERMERCADO, se imaginando dando uma voltinha para satisfazer uma "felicidade imediata".

Entretanto, hoje fiz um exercício contrário. Ao invés de dar uma voltinha no "super", preferi me fazer essa pergunta como um CONTRA-DISPOSITIVO do consumo. E fiquei pensando: o que me faz feliz??!!!!!

Estou com ela, ecoando em meu "corpicho". Tanto que já escrevi várias respostas. Também apaguei. Assim como, pensei que a noção de felicidade é totalmente co-dependente do nosso campo de percepção. Ou seja, a noção de felicidade se transforma. E sendo transitória, relaciona-se ao campo de informações que compõe a nossa vida em determinado momento.

Então vamos lá... vamos a listinha, sem pensar em hierarquias:

O QUE FAZ VOCÊ FELIZ? (ecoando na voz de Gilberto Gil)

- Sentir minha filha chutando dentro da barriga,

-Dançar, sempre...

-Ouvir música árabe, evangélica, blues, MPB, etc.

-Ouvir Roberto Carlos no maior volume fazendo a faxina na casa;

-Dormir abraçada com meu marido;

- Estar em família,

- Ver o mar na orla da barra, descendo o Cristo...

- Andar descalça,

- Comer acarajé com camarão,

- Ler um bom livro,

- Ouvir Helena Katz falar (em aulas, em seminários, etc.)

- Tomar banho,

- Conversar com amigos e colocar a "fofoca" em dia,

- Colo de mãe,

- Louvar a Deus,

- Dar aula de Dança (prática - teórica),
- Fazer justiça,

- Estender a mão ao próximo (coletivo que fazemos parte),

- Escrever,

- Fazer uma comidinha para o maridão, ser uma amélia, confesso!

- Uma boa aula de pilates,

- Dançar em volta de uma fogueira,

- Amar e ser amada,

- Conviver com meus bichos (Pandora e Quito),
- Receber do marido massagem nos pés,

- Saber que a vida/felicidade é feita de coisas simples....


E VOCÊ???

sábado, 19 de junho de 2010

TCE SOBRE DANÇA TRIBAL: UMA PESQUISA QUE INAUGURA UM CAMPO DE ESTUDO EM SALVADOR


Na quinta passada, 17 de dezembro de 2010, fiz parte da banca examinadora do trabalho de conclusão de estágio da dançarina-pesquisadora Joline Andrade, orientanda da Profa. Virgínia Chaves, graduanda do Curso de Licenciatura em Dança da Univerrsidade Federal da Bahia. E gostaria de usar esse espaço para compartilhar com vocês essa experiência, afinal temos o dever de divulgar iniciativas comprometidas em tratar a dança como objeto de pesquisa, fora do senso comum.
Em primeiro lugar, devo parabenizar a Escola de Dança da UFBA, por estimular seus alunos pelo viés da pesquisa artística e acadêmica. Num fazer, onde prática e teoria andam imbricados. Sem dicotomias que colaboram para a hegemonia de entendimentos como o de quem faz dança, não precisa pensar, apenas sentir. Assim, o que deveria ser um TCE, no formato de um relatório de estágio supervisionado, apresentou-se como um estudo crítico reflexivo sobre uma prática. Com uma rica argumentação teórico-prática sobre a dança tribal fundamentada por uma filiação teórica, que não deixa nada a desejar aos esboços iniciais de uma pesquisa de pós-graduação. Tanto que, o estudo inicial feito por Joline, com alguns ajustes poderá se transformar facilmente num pré-projeto de seleção de mestrado.
Em segundo lugar, gostaria de parabenizar Joline pelas articulações teóricas apresentadas no texto. Que muito se devem ao seu percurso na Universidade, pois é perceptível o modo como o acesso (aproveitamento) ao conhecimento no ambiente da graduação, faz, SIM, toda a diferença. Pois, fui professora substituta dessa disciplina - PRÁTICA DO ENSINO DA DANÇA e, devo confessar que cada aluna (o) opta por diversos processos de reflexão. Alguns, constroem conexões muito iniciais, enquanto outros, conseguem dar saltos significativos. Sem que isso, seja uma avaliação hierárquica, entretanto, é preciso pontuar as diferenças.
Vamos ao TCE...
A começar pelo título:
DANÇA TRIBAL: PLURALIDADE ÉTNICA E FUSÃO CONTEMPORÂNEA
Achei muito interessante essa idéia trazida de imediato, ou seja, a dança tribal como uma configuração plural e em fusão. Que no decorrer do texto é explicado a partir dos rastros de algumas matrizes culturais que constituem a dança tribal, repropostas como identidades MIXADAS (muito bom essa definição) que se organizam em processos de fusão.
A arquitetura teórica:
A análise dos dados coletados durante o estágio e a construção do texto se deu a partir " das teorias do hibridismo e mestiçagem nos estudos de sociologia de Serge Gruzisnki e Peter Burke, na concepção de identidade cultural na pós-modernidade desenvolvida por Stuart Hall, no entendimento da Complexidade através do sociólogo/antropólogo/historiador Edgar Morin, nos estudos da sociedade de consumo de Jean Baudrillard e finalmente em autoras que organizam estas e outras informações no pensamento sobre a dança como Helena Katz, Christine Greiner e Laurence Louppe". (trecho extraído do resumo)
Conexões apresentadas:
- O ENTENDIMENTO DA NOMECLATURA TRIBAL (a partir da idéia de tribos);
- A EVIDÊNCIA DA MESCLAGEM PRESENTE NA FORMAÇÃO DA DANÇA TRIBAL;
- HIPÓTESES PARA A PREDOMINÂNCIA DE ELEMENTOS DA DANÇA DO VENTRE (70%) NA ORGANIZAÇÃO DA DANÇA TRIBAL, A PARTIR DE FENÔMENOS DE ADAPTAÇÃO E APPROPRIAÇÃO EXPOSTOS POR PETER BURKE (LIVRO HIBRIDISMO CULTURAL, 2003);
- A CONSTITUIÇÃO DA DANÇA A PARTIR DE IDENTIDADES (MÓVEIS E EM RELAÇÃO), NOMEADAS COMO IDENTIDADES EM FRACTAIS;
- UM ESBOÇO DE DISCUSSÃO SOBRE O CORPO FEMININO, CORPO ERÓTICO E CORPO DE CONSUMO NA DANÇA TRIBAL E NA DANÇA DO VENTRE (constitutiva da dança tribal) PELO FILTRO DE BAUDRILLARD (1991);
- UMA ARTICULAÇÃO CONCEITUAL E ESTÉTICA ENTRE A PERFORMANCE UTILIZADA POR NEY MATOGROSSO (durante a sua atuação no grupo Secos & Molhados, 1973-1974) E AS PERFORMANCES DE DANÇA TRIBAL REALIZADAS NOS ÚLTIMOS ANOS. PELA ÓTICA DO HIBRIDISMO, PERFORMANCE E MOVIMENTOS DE CONTRA-CULTURA.
Conexões e reproposições que me fizeram pensar e propor para Joline alguns desdobramentos para pesquisas futuras. Pois, acredito que um bom trabalho tem essa função, inicialmente ensinar o outro, já que é uma produção de conhecimento e não apenas uma informação a ser acessada, como também servir como ignição para outras trilhas. É por isso que a noção de autoria é reproposta hoje, como co-autoria, uma vez que quando a informação caí no mundo, ela caminha com pernas próprias e instiga o outro a produzir/propor juntamente com o autor inicial. E assim, segue minhas proposições...
- Pensar sobre mecanismos para potencializar a tendência de mesclagem da dança tribal como um andítodo para padtonizações. Pois, AINDA que, hoje se tenha uma diversidade estilisca muito grande, como a exemplo das fusões californianas: o jazz fusion, gothic tribal fusion, vintage bellydance, balkan fusion, afro-bellydance fusion, entre outras, percebe-se um movimento de padronização das coreografias como produtos de mercado. O que de alguma forma implicaria numa produção em massa, principalmente pela mídia, gerando estabilidade aos processos de replicação e a depender, uma "perda" das mesclas COMO transformações contínuas.
- Refletir sobre a armadilha criada em torno da exotização da dança tribal. Pois, se por um lado a dança tribal coneguiu romper com as estratégias de erotização feitas com a dança do ventre, hoje torna-se refém de ser etiquetada como um produto exótico. Uma tendência mercadológica de sublinhar o exótico (assim como foi feito com as culturas distintas do colonizador, basta lembrar do que foi feito com os nossos índios), reforçando uma leitura reduzida de um fenômeno. Ou seja, achata-se a complexidade da dança e sublinha o exótico que o outro lê. E muitas das bailarinas, talvez, têm seguido essa tendência. Muito observado na forma como valoriza o apresentar-se na dança, o figurino e a maquiagem, sem dar a mesma "atenção" aos processos investigativos do corpo. A questão aqui posta é a redução da complexidade da dança e a produção em massa de uma dança caricatural. Enfim, muitas vezes uma dança que atende a consumo mercadológico e não ao entendimento de produção artística. Como ESCAPAR dessa armadilha?
- A idéia de performance contida na dança tribal. Algo a ser explorado, principalmente a partir dessa articulação com o "performer" Ney Matogrosso. Seria o sentido performativo uma estratégia de sobrevivência da dança tribal?
Enfim, essas são as minhas inquietações.
Espero que Joline possa difundir sua pesquisa e contribuir para ampliação do entendimento sobre a dança tribal. A chamada no blog é apenas um passo inicial. Recomendo para quem se interessar, tentar entrar em contato com essa pesquisadora, que corajosamente inaugura um campo de pesquisa.

domingo, 13 de junho de 2010

E por falar em saudade...




FEIRA DIAMANTINA-MG

Hoje pela manhã, como de costume no domingo, após o café...passo um bom tempo lendo o Jornal A tarde (Salvador-Ba). Um ritual herdado de meu pai. Que começa com a espera da senhora, que entrega há mais de 10 anos o jornal em nossa porta. Folheio cada página... mas sigo uma ordem costumeira. Inicialmente vou para as colunas de Malu Fontes e Danuza Leão, para depois ir para a revista MUITO, seguida da revistinha da TV, matérias da 1ª página e a seção policial. E ao me deparar com a coluna de Danuza Leão entitulada, "Por falar em saudade", de imediato pensei em usar o texto escrito como inspiração para um post aqui no blog. Peço desculpas, por ter copiado o título, que veio também da música - Onde Anda Você, do nosso poetinha Vinicius de Moraes. Contudo, quero deixar claro que a minha saudade não tem nada haver com os hábitos por ela abordados, ou seja, fumar um cigarro e tomar uma boa e velha dose de uísque, mas são sensações, sabores, cheiros, sons, paisagens... hábitos incorporados nessa minha vida em trânsito nesses últimos 3 anos.

Quero, aqui, transitar por esse recorte temporal e geográfico, para não correr o risco de ir longe demais e chegar até a década de 80. Com todas aquelas maravilhas que conhecemos e hoje, se tornaram acervo de muitos adultos-jovens que fazem o tipo meio descolado e "retrô" (devo confessar que sou simpatizante dessa categoria). Ai saudade da década de 80! Mas deixa lá...saudades e mais saudadades...

De 2008 a 2010 venho acompanhando meu marido nas suas remoções pelo território nacional. Em 2008, moramos em Diamantina (MInas Gerais) já em 2009 fomos de Campinas (São Paulo) e para Paulo Afonso no interior da Bahia. Sendo que neste ano estive em trânsito entre Salvador, Paulo Afonso e São Paulo, onde faço o Doutorado em Comunicação e Semiótica-PUC. Vida cigana que me faz experimentar de um tudo. Não ter pudores em incorporar hábitos locais e me dar o "luxo" em ser uma cidadã em trânsito.
De cada lugarzinho que passei, tenho uma lista de "saudades"... E se pudesse encontrar o "gênio da lâmpada" pediria um único desejo: uma mescla dessas experiências sem que tivessem tempo para acabar.

A começar por...
Diamantina- MG
- O café acompanhado de bolo de milho e pão de queijo do CAFÉ MINEIRO.
- As conversas na porta de casa, na lojinha de Sâmia.
- A feira no sábado, com as verduras deliciosas e fresquinhas, regada de "cachaça", pestiscos e música sertaneja para aguentar o frio.
- A missa na Catedral de Santo Antônio.
- A minha varanda, na qual ficava igual a jacaré tomando sol.
- Das amizades que fizemos ali.
Campinas-SP
- A nossa casinha tão aconchegante(a cozinha enorme).
- Minhas experimentações como dona de casa e cozinheira.
- Os passeios pelo Cambuí.
- As aulas de yoga e Pilates na acacdemia, na esquina de casa.
- A pitza de cebola, shimeji e shitake da Pizzaria Brás.
- A confeitaria Romana.
- As noites de frio regadas a vinho casal Garcia e Fondue.
- O trânsito livre.
- As amizades que fizemos ali.
São Paulo (período do Doutorado)
- Do convívio semanal com minha querida orientadora, Helena Katz (a pessoa mais generosa que conheço do meio acadêmico).
- Dos domingos na Igreja Batista Perdizes.
- Da PUC em todos os sentidos: CED, aulas, biblioteca, amizades...
- Da feira as terças-feiras na Rua Ministro Godói.
- Da broinha com café na cantina do 5º andar na PUC, na companhia de Amanda, Leila e Andréa.
- Da grade de possibilidade de espetáculos de dança, durante toda a semana.
- Do frio, que de alguma forma nos proporciona diversos prazeres: chocolate quente, cobertor e um bom livro e a vontade de não sair da cama.

Não vou aqui, escrever sobre Paulo Afonso... Porque por agora, não significa uma passagem em nossas vidas... mas devo confessar: que morro de vontade de ficar na minha casa ampla e de saudade da cidade tranquila, onde se pode transitar de carro sem engarrafamento.
E com relação a sampa, devo voltar outras vezes, afinal ainda tenho que retornar para a qualificação e defesa. A "broinha" do 5º andar que me aguarde!
Mas sinceramente, se pudesse viveria todos esses lugares-pessoas, gostos, sensações no AQUI E AGORA.
E POR FALAR EM SAUDADE... do que você sente falta?

terça-feira, 1 de junho de 2010

Felicidade antecipada...


“No dia seguinte o príncipe voltou. Teria sido melhor se voltasses à mesma hora – disse a raposa. _ Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade"!

FONTE: O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry

O amor tem dessas coisas... independente das suas rotinas e fases. Sempre é tempo de ter o coração batendo a espera do amado. E não tem jeito... a felicidade vem antecipada às três horas da tarde, na noite de insônia que antecede a sua chegada, nos cuidados com o visual, com a casa... Me encontro assim: feliz! De pijamão, cobertor e meias. Ainda que essa felicidade não combine com o céu cinza e o frio de sampa. Tem mais a cara do sol de Salvador, não é? Uma tarde no Rio Vermelho comendo acarajé e olhando para aquele mar. Enfim, seja aqui ou em qualquer lugar, que o amor possa nos trazer dias felizes e noites com sol...