sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

TEORIA CORPOMÍDIA

TEORIA CORPOMÍDIA

Diversas formas existem de entender/pensar corpo.Pode-se transitar por diversas filiações teóricas, aqui, escolho compartilhar com vocês um pouco da Teoria Corpomídia (escrito junto) desenvolvida por Christine Greiner e Helena Katz (2005) enquanto uma das possibilidades possíveis. Devo dizer que desde 2006, quando tive acesso a essa abordagem teórica, muitos dos meus entendimentos habituais de/sobre corpo foram desmontados e fiz a opção adotá-la nas minhas pesquisas de Dança.

Vamos lá...

O ponto de partida...

Batizada como corpomídia pelas professoras doutoras da PUC/SP – Christine Greiner e Helena katz, essa “abordagem teórica é tributária da semiótica peirciana nos usos do conceito de fluxo permanente (semiose), das teorias evolucionistas neodarwinianas (entre as quais se destacam o meme de Richard Dawkins e a concepção de mente de Daniel Dennet) e da abordagem filosófica do papel das metáforas na construção da cognição proposta por George Lakoff e Mark Johnson”. (KATZ, apud MACHADO, 2007, p. 34)

Idéias Básicas...

Com a teoria corpomídia pode-se pensar o corpo a partir da sua característica processual, enquanto mídia
[1] de si mesmo, como um sistema vivo e em trânsito contínuo de trocas de informações com o ambiente.

Ou seja... Corpo e ambiente como co-dependentes, atuando juntos, sem separação. Ou seja, corpo que atua e se faz no ambiente, ambiente que é também corpo, na medida em que atua também no corpo. Onde o modo de atuar tem que ser sublinhado em fluxo contínuo de informação.

Aqui, um pouco da descrição da própria Christine Greiner (2005, p. 131):

“Algumas informações do mundo são selecionadas para se organizar na forma de corpo – processo condicionado pelo entendimento de que corpo não é um recipiente, mas sim aquilo que se apronta nesse processo co-evolutivo de trocas com o ambiente. E como o fluxo não estanca, o corpo vive em estado do sempre-presente, o que impede a noção de recipiente”.

Com essa moldura de corpo e ambiente em fluxo de informação, é possível prosseguir no desmonte da noção do corpo como um recipiente. E repensar o corpo não enquanto um meio por onde a informação simplesmente passa e sim, como o resultado desses cruzamentos.

É nesse sentido que se entende o corpo como mídia de si mesmo, como uma coleção de informações transitórias e mutantes em fluxo contínuo. Pois, a cada informação que chega no corpo reposiciona-o por inteiro.

Assim, quando se caminha com a teoria corpomídia, não se aceita mais entendimentos de que o corpo é um produto pré-dado, passivo e acabado, ou seja, a idéia do “corpo-gabriela”, cantado como: “eu nasci assim, cresci assim, vou ser sempre assim...Gabriela”. O que favorece a revisão dos tempos verbais tão viciosamente usados nos nossos discursos diários. Principalmente quando nos referimos ao outro do seguinte modo: “fulaninha é assim”, para “fulaninha está assim”, justamente porque o corpo que É PESSOA (e não uma coisa que as vezes sente dor) ESTÁ SENDO uma coleção de informações transformadas a todo instante.

É essa idéia de não recipiente e fluxo Inestancável que instabiliza o verbo ser e, repropõe entender o corpo como uma coleção de informações em processo. Pois o corpo NÃO É e sim ESTÁ SENDO.

De acordo com Helena Katz na palestra – Corpo e Cidade no II Encontro de História e Comunicação, “o corpo é corpomídia da coleção de informações o tempo inteiro. É revelador de si mesmo, resultado dos fluxos de trocas dos ambientes que transita”. Logo, o tempo todo, o corpo comunica a sua coleção de informação voluntariamente ou involuntariamente.

Implicações...

Aqui, proponho pensar que essa co-dependência entre corpo e ambiente implica em uma mutualidade, da qual se torna impossível escapar. Que de pronto, nos responsabiliza pelos tipos de ambientes que escolhemos para transitar e trocar. Pois, somos nada mais nada menos, resultados das nossas escolhas. Além do mais, não dá para imaginar que a gente pode levar o “corpicho” para passear e ele não ser contaminado e não contaminar o ambiente que se encontra. Quer queira ou quer não, o corpo não recusa informação. Seja o meu corpo, seja o corpo do outro.

Assim... seja nos atos de fala, seja nas ações de dança, etc. o nosso corpo comunica e troca idéias/pensamentos/visões de mundo, que nos fazem PESSOAS e constituem o coletivo que vivemos.

Finalizo essa forma de apresentar a Teoria Corpomídia, com uma colocação da Profa. Doutora Lenira Rengel/Escola de Dança da UFBA:

“[...] o corpo não é um lugar onde os eventos acontecem e vão embora. Os acontecimentos estão no/são o próprio corpo, ocorrem com pensamentos veias, dores, pulsações...Somos corpo e não pessoas que possuem um corpo ou habitam um corpo”. (RENGEL, 2007, p.27)

Referências Bibliográficas:
GREINER, Christine. O corpo: pistas para estudos indisciplinares. São Paulo: Annablume, 2005.
KATZ, Helena. Corpo e movimento II. In: GREINER, Chistine; AMORIN, Claudia (orgs). Leituras do Corpo. São Paulo: Annablume, 2003, p. 78-88.
______. Um, Dois, Três: a dança é o pensamento do corpo. Belo Horizonte: FID Editorial, 2005.
MACHADO, Adriana Bittencourt. O papel das imagens nos processos de comunicação: ações do corpo, ações no corpo. 2007. 117 f. Tese (Doutorado em Comunicação e Semiótica). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.
MIGNAC, Márcia Virgínia dos Reis. A SUBVERSÃO DA SUJEIÇÃO: A AÇÃO POLÍTICA DA DANÇA DO VENTRE EM ADOLESCENTES SUJEITADAS E EM INSTITUIÇÕES. 2008. 125 f. Dissertação (Mestrado em Dança). Programa de Pós-Graduação em Dança. Universidade Federal da Bahia, Salvador.
RENGEL, Lenira Peral. Corponectividade: comunicação por procedimento metafórico nas mídias e na educação. 2007. 161f. Tese (Doutorado em Comunicação e Semiótica). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.

OBS: Essa escrita sobre a Teoria Corpomídia foi pautada nas aulas da Profa. Doutora Helena Katz, no 2º semestre do Doutorado em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

SUGESTÃO PARA QUEM SE INTERESSAR MAIS SOBRE A TEORIA CORPOMÍDIA:
0 SITE DE HELENA KATZ: http://www.helenakatz.pro.br/

[1] A idéia de mídia aqui proposta refere-se ao modo do corpo existir. O corpo como mídia de si mesmo, sempre na condição de “sendo”, por onde as informações se tornam corpo e não atravessam o corpo. De acordo com Katz, não se trata do conceito de mídia como veículo por onde algo passa para ser exteriorizado – como, por exemplo, a TV, um aparelho por onde entra um sinal que carrega uma informação, que é lá processada e emitida, deixando o aparelho tal qual estava antes dessa operação. Pois, o corpo não é um veículo processador de informações O corpo comunica a si mesmo e não algo que o atravessa sem modificá-lo (KATZ, 2004).

3 comentários:

  1. Ótimas reflexões, Ma...Nosso corpo capta, digere e responde às informações que lhe chegam. E é deste processo que nsce a elaboração de nossa comprenssão de mundo. Entendo o mundo a partir do corpo que tenho.

    Escreve mais...

    Beijo.

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  2. Oi Vivi que bom! Que bom que você tece relações com o mundo a partir do corpo!!!! Pois é, eu sou suspeita para falar... mas acho a teoria corpomídia fantástica. Vou aos poucos tentar postar algumas questões e implicações políticas quando se adota essa teoria. Flor...tudo é uma questão de tempo! Adoraria que o dia tivesse 48h. Teria tempo para mais coisas... bjs

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  3. Muito bacana, Márcia. Estou escrevendo sobre Yoga e educação e as reflexões sobre o corpo são fundamentais para o meu trabalho. Encontrei o seu blog numa pesquisa e já havia lido alguns textos da Lenira e sobre o conceito de corpomídia. Grata pela contribuição dos seus escritos. Como tudo é corpo, tenho vivenciado no Yoga com as crianças essa relação do corpo que traz informação, histórias,vivencias...Vida! Um abraço!

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