quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

FELIZ 2011!


Revendo o post publicado no blog em dezembro de 2009 (http://corpossibilidades.blogspot.com/search?updated-min=2009-01-01T00%3A00%3A00-03%3A00&updated-max=2010-01-01T00%3A00%3A00-03%3A00&max-results=43) , no qual listava ações para o ano de 2010, percebo que escreveria da mesma forma hoje. Pois a ação de comprometer-se – TER COMPROMISSO – com a vida, coletivo, com a dança, são meus focos de ação. Ainda mais que SÓ acredito nas ações efetuadas no micro, no espaço do cotidiano, lado a lado com o outro e ando bem desacreditada nas ações dos poderes soberanos.

Para esse ano de 2011 que chega, acrescentaria outras ações: a ação de encantamento pela vida que se anuncia todas as manhãs no sorriso de minha filha e a ação de indignação. QUE NÃO SE PERCA A POSSIBILIDADE DE INDIGNAR-ME COM AS SITUAÇÕES DO DIA A DIA QUE SE BANALIZAM COMO UM CARDÁPIO DE OPÇÕES A SER OFERECIDO PELA MÍDIA. Ahhhh meu Deus, que meu ser continue a desejar justiça e a se compadecer da miséria que assola o ser humano. Humano tratado como des-humano, inclusive por todos nós nas esquinas da vida. Que esse movimento na contramão/compaixão não encontre APENAS abrigo nos sorrisos dos meus. Afinal como olhar para o riso tão ingênuo da minha filha e não pensar em outras crianças que se quer tem o pão de cada dia e o que dirá do amor?

Agradeço imensamente a Deus por sua bondade e misericórdia que me ungiu de força/capacitação e permitiu a realização de muitos meus desejos para 2010. O nascimento de Maria Elisa é um deles. Assim como a posse como professora efetiva no Curso de Dança da Universidade Federal de Sergipe. Não tenho palavras para agradecer e só escrevo que meus olhos presenciaram “o impossível acontecer”, parte do refrão da música “DEUS DE PROMESSAS”. Reconheço, aqui, que sem o SENHOR JESUS, nada do que realizei nesse ano seria possível!

PARA 2011...

Aprendizados muitos...
A ENTREGA NOS SIMPLES ATOS... Assim como fazem os bebês, que se oferecem sem medo. E nos ensinam com o “pequenograndeamor” pela vida/coisas: a conversa com o travesseiro, o olhar hipnotizado para o céu, a risada escancarada e os olhos que falam com a alma. Pergunto-me o motivo pelo qual perdemos essa disponibilidade? A entrega ao outro? ENTREGA QUE PEDE CORAGEM, CONFIANÇA E AMOR. ENTREGA QUE PERMITE SABOREAR O BANQUETE DA VIDA. Ainda que a vida se apresente também com seus dissabores.

Que nesse ano que chega consiga retornar a minha ação social com a Dança. Que o Projeto Re-creio seja re-editado em Sergipe de outro modo, mas que tenha o mesmo AMOR iniciado com “minhas meninas” do CEDECA e VIVER. Que a cada dia DEUS me dê sabedoria para viver comprometida com o seu REINO.

DEUS ESTEJA CONOSCO... e que todos os nossos atos sejam feitos de AMOR. AMOR QUE VEM DE DEUS.

FELIZ 2011!

sábado, 27 de novembro de 2010

IMPRESSÕES CAPTURADAS...

Ao começar a ler o mais novo livro de Christine Greiner - "O Corpo em Crise- Novas Pistas e o Curto-circuito das representações", de cara, uma citação de Heráclito me chama atenção:
"PARA OS DESPERTOS, UM MUNDO ÚNICO E COMUM É, MAS AOS QUE ESTÃO NO LEITO, CADA UM SE REVIRA PARA O SEU MUNDO" (Héraclito citado por Giorgio Agamben)
Que interessante, hem? Ao pensarmos num mundo capitalista e individualista, onde o "salve-se quem puder" reina absoluto, o leito é muito mais convidativo do que a vígilia e o compromisso com um viver coletivo.
...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

SE VIRANDO NOS 30...

UFA!!!!!! Agora mais do que nunca é preciso entender sobre planejamento e convergência. Uma vez que preciso dar conta de criar minha filhota, atender meus anseios pessoais, dar conta da escolha profissional e escrever uma tese de Doutorado. Sem falar de outros desafios... acho que a imagem ilustra bastante.
Assim penso que convergir as tarefas com um mínimo de planejamento prévio é vital! Ontem separei os textos para preparar as aulas na UFS e ao mesmo tempo que alimentava minhas idéias da escrita da tese, embalando Maria Elisa e tudo mais...UFA!!!! Agora entendo que ser mãe, mulher, profissional, dançarina, sonhadora, uma pessoa que é adepta a resistência até o fim e luta contra as injustiças... tem que aprender a se virar nos 30!!!!!

Vou correndo dar o banho de Maria Elisa...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

1º CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES DE DANÇA EM SALVADOR

Queridos,
Abaixo segue o e-mail enviado pela professora Doutora Helena Katz. Vamos nos mobilizar! A filiação a ANDA é fácil e online, mesmo que não esteja presente ao Congresso, filie-se.
Meus caros,
De 1 a 4 dezembro, em Salvador, na UFBA, será criada a Associação Nacional dos Pesquisadores em Dança - ANDA.
Trata-se de uma iniciativa importante para todos aqueles que se interessam pela consolidação da dança como uma área visível e respeitada no cenário nacional.
Será necessário buscar a adesão do maior número possível de pesquisadores para que possamos nos firmar como uma associação científica representativa da diversidade que caracteriza a dança no Brasil.
Se cada um de nós puder convidar outros pesquisadores a participarem desse momento histórico, será ótimo.
Se a associação somos nós, será do nosso empenho que ela dependerá para nascer forte e representativa. A filiação/inscrição é feita por um boleto disponível on line no seguinte endereço:
Mesmo não podendo comparecer ao Congresso, a sua filiação é importante.> O sucesso da nossa associação depende de cada um de nós.
Beijinho e até dezembro, na UFBA.
Helena Katz

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

MULHER NA PRESIDÊNCIA



PARABÉNS PARA TODOS OS BRASILEIROS! TEMOS HOJE UMA MULHER NA PRESIDÊNCIA. UMA ESCOLHA QUE VAI ALÉM DA POLÍTICA E SIM O QUE REPRESENTA TER UMA MULHER EM UM CARGO EXERCIDO DURANTE ANOS PELA FIGURA MASCULINA. ESSE VÍDEO ME FOI ENVIADO HOJE PELA MANHÃ POR UMA PESSOA MUITO ESPECIAL. E COMO ELA, ESCREVO COM BEIJOS EMOCIONADOS. ESPERO QUE GOSTEM!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

AGORA É NA BASE DO PEITO!!!!

ALEITAMENTO MATERNO!!!!!
Eis o motivo da minha ausência! Mamãe-vaca agora só tem essa preocupação por enquanto: alimentar a filhota. Aos poucos vou retornando...
Muitas experiências para postar. A maternidade é a prática de muitos entendimentos aprendidos com as Ciências Cognitivas e a Neurociência. O corpo é a ignição para tudo!!!!
No retorno também vou postar sobre meu Doutorado. Aguardem...
SAUDADES E BEIJINHOS!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

VITÓRIA NO CAMPO DA DANÇA!

Ontem foi o grande dia! Depois de mais de um ano e meio de espera, enfim tomei posse como Professora Asssistente do Curso de Dança da Universidade Federal de Sergipe. Não vejo a hora de estar em sala de aula e compartilhar tantos anos de aprendizado e preparação para esse momento. Depois de ter sido professora subsitituta do Curso de Dança da Universidade Federal da Bahia, entendi que essa é realmente a minha vocação. Tenho fome de sala de aula e de contribuir para a formação de um pensamento de dança no nordeste e no Brasil. Sem falar que tenho como orientadora do Doutorado, a profa. Doutora Helena Katz e acompanhar Helena durante esse 1 ano e meio semanalmente é sim, uma inspiração para essa tarefa.
Obrigado ao meu DEUS pela sua fildelidade e por ver o impossível acontecer! Obrigado meu pai Alfredo, que infelizmente não está mais comigo em vida, contudo foi a pessoa que mais me incentivou a buscar um concurso público. Dizia para eu largar a dança e fazer o curso de Direito- "filha dança não dá futuro". Porém eu determinada respondia: "pai, um dia chego lá com a Dança. Pode demorar, mas chego". Pai, essa vitória é para você e para todos que acreditam na dança como campo de conhecimento.
"PORQUE O SENHOR DOS EXÉRCITOS O DETERMINOU: QUEM POIS, O INVALIDARÁ? A SUA MÃO ESTÁ ESTENDIDA: QUEM POIS, O FARÁ VOLTAR ATRÁS?" ISAÍAS 14-27
OBS: ESTOU CORRIDA PORQUE MINHA FILHOTA, PEDE MAMA!!!! LÁ VAI MAMÃE VACA!!!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

PARA QUEM PEDIU: O BARRIGÃO!!!!


PRONTO!!!!! Atendendo aos pedidos...
Eis o barrigão que Maria Elisa fez. A foto é equivalente a essa semana, já nas horas... Vejam minha cara de maternidade?
Pois é meninas, minha filhota é muito grande!!!! Já pesa 3,600kg. Será uma meninona!!! Terei que malhar muito...
Espero que entendam que relutei muito em fazer uma "publicidade" desse momento. Acho que é uma ação na contramão de tantos anos em que a dança do ventre me fez uma pessoa pública. E também, penso que minha filhotita não tem escolhas nessa direção. Será que gostaria de tanta visibilidade?
Enfim... obrigada pelo carinho de todas.
Beijinhos...

terça-feira, 31 de agosto de 2010

PAUSA TOTAL!!!!!


Queridos (as),
Em breve o milagre da vida chegará para nós. E assim, eu e Pedro, nos tornaremos uma família. De modo que, nesses dias que antecedem o parto, devo confessar que já nem tenho concentração para escrever, ler ou fazer qualquer outra coisa que não seja sobre o assunto- família, bebês e nascimento. Acho que vocês devem ter percebido, pela falta de regularidade das postagens e uma longa ausência.
O que me faz concordar PLENAMENTE, com Darwin, quando se refere que no período da gestação o corpo economiza energia e torna-se mais lento, sem concentração e até "desmemoriado" (como falava minha avó). Justamente para deslocar energia para o crescimento do bebê.
Enfim...
Contudo agora essa ausência deve se prolongar. Pois com o nascimento de Maria Elisa, será que vou ter tempo de chegar até aqui? Acredito que nas primeiras semanas, não. Então... beijinhos para todos (as), ficarei com muitas saudades.
MANDO NOTÍCIAS!!!!!
FIQUEM COM DEUS.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

APRENDENDO COM A FALTA DE CONTROLE...


A gestação me ensina a conviver com os distintos ritmos da natureza. O tempo é outro. Estendido de outro modo, pode-se pensar na lentidão como um um jeito de apresentar-se. O que de imediato pede um ajustamento, justamente para não passar batido o seu legado mais precioso: a imposição de um ritmo próprio.

Afinal, ainda que se saiba que é chegada a hora do parto, e se tenha data prevista e agendamento da maternidade, a hora H é uma incógnita. É determinada por um ritmo interno, próprio, que só seu corpo sabe.

Essa sensação de falta de controle, amplificada pelo desconhecido agrava-se a partir da 37º semana de gestação. Uma vez que, o feto deixa de ser prematuro e a qualquer pode anunciar-se. Nesse sentido, descompassos se estabelecem. Corpo e controle tornam-se parceiros da impertinência.

O corpo segue lento, gozando da sua autonomia e controle próprio, despreocupa-se com o cumprimento do calendário. Se faz no seu tempo, atento as suas especificidades: o ritmo das contrações, o amadurecimento da placenta e as movimentações fetais. Ensina-nos a trafegar quase imune ao imperativo do controle.

Dentro da sua sabedoria, usa a imprevisibilidade como um antídoto para o contexto de controle e antecipações, no qual estamos habitualmente "treinados". Afinal quanto mais planejamos e temos o controle absoluto da situação, garantimos o cumprimento maior do que nos foi programado. Um tipo de desempenho que discursa a tão popular frase: "não deixe para amanhã, o que pode fazer hoje" e no qual encerra o perigo de viver-se sempre refém de um trânsito esvaziado de presentificação.

A escolha de usar a imagem do "caramujo" é uma possibilidade de aprender com outros ritmos. Entender a lentidão, não como um desconforto, e sim como um serviço para experimentar a interiorização da natureza. Voltar-se para suas especificidades e esquecer a cronologia inventada pelo homem. Pois, o que vale no contexto da gestação é o relógio-corpo, seus fluidos como o mover-se de um ponteiro e o batimento fetal como o ritmo do tic-tac.
Outros tempos... outras marcações... ensinamentos preciosos da corporeidade.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

AINDA EM MOMENTO NOSTALGIA...




"Calma, tudo está em calma...deixe que o beijo dure, deixe que o tempo dure..."
Grande aprendizado, nesses momentos de espera...

INVADIDA POR NOSTALGIA, SONHOS, POETIZAS E MÁRTIRES...


Ultimamente tenho tido insônia...Normal nessa fase final de gestação. Acontece que ao invés de contar carneirinhos, sou invadida por memórias, sonhos, poetizas e mártires... Um desejo enorme de guardar momentos bons, sonhos, pessoas e exemplos para minha tutuca que chega. Vou desde as memórias em família, o luar de Arraial D'Ajuda, os poemas de Cecília Meirelles, os escritos de Alice Ruiz, até chegar ao discurso de Martin Luther King. Como se pudesse parar o tempo e guardar preciosidades que o viver oferece...
Para você filha, parte da sabedoria de um grande homem...
"É melhor tentar e falhar que ocupar-se em ver a vida passar. É melhor tentar, ainda que em vão, que nada fazer. Eu prefiro caminhar na chuva a, em dias tristes, me esconder em casa. Prefiro ser feliz, embora louco, a viver em conformidade. Mesmo as noites totalmente sem estrelas podem anunciar a aurora de uma grande realização. Mesmo se eu soubesse que amanhã o mundo se partiria em pedaços, eu ainda plantaria a minha macieira. O ódio paralisa a vida; o amor a desata. O ódio confunde a vida; o amor a harmoniza. O ódio escurece a vida; o amor a ilumina. O amor é a única força capaz de transformar um inimigo num amigo..."(Martin Luther King)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

EU QUERO UMA CASA NO CAMPO...


Passeando no blog - Menina de Óculos (http://meninadeoculos.blogspot.com/), me deparo com uma postagem que me identifico de cara. Na qual a escritora de maneira muito afirmativa deseja ser doutora, levita e ter uma casa no campo. O que fez meu ego berrar imediatamente: TAMBÉM QUERO!!!!
Engraçado isso, agora me caí a ficha os motivos pelos quais me graduei em Medicina Veterinária (?????). Percebo que não era somente um AMOR INCONDICIONAL pelos animais, mas muito da vontade de ter uma casinha no campo. De modo que me pergunto agora, o motivo pelo qual esse desejo retorna? Ressuscitou , foi? Será que tem haver com o instinto maternal? Oxe... se a Veterinária ficou lá atrás.
Enfim... Acolho o desejo. E assim como minha companheira blogueira, também pretendo finalizar o doutorado - tornar-me doutora e, e, e...
... ter uma casa no campo, onde eu possa aninhar minha família, marido e filha, de um modo mais humanizado, MENOS CAPITALISTA e com a consciência de que somos um com o planeta;
... ter uma casa no campo para aprender com o noção do tempo, os cheiros e os gostos;
... ter uma casa no campo, onde eu possa falar com DEUS e contar as estrelas quando a noite chegar;
... ter uma casa no campo para dançar com os pés descalços, tendo apenas como testemunha a lua cheia e o Senhor do Universo;
... ter uma casa no campo para colher o alimento na minha horta e aprender com os ciclos da natureza;
Será possível? Talvez, não. Que a casa no campo, seja uma boa metáfora no meio da selva de pedra. Uma tentativa de revisitar os desejos mais íntimos - o campo dos sonhos e re-direcionar ações.
Para finalizar, canto:
"Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal"
E você, qual é a sua casa no campo? O seu desejo mais íntimo?

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

SOHEIR ZAKI: A POÉTICA SE FAZ


Retomo a análise dos vídeos. Para quem chega agora no blog, explico que comecei a meter a mão nesse canteiro de obras com o vídeo da Fifi Abdoo (quem se interessa, veja nas postagens antigas). Nesse momento, tento cumprir o prometido: debruçar-me em Soheir Zaki. E de cara, explico a escolha do Vídeo. Em 1º lugar é apenas a primeira parte de uma rotina, dividida em 4 partes. Mas me detenho apenas a esta, justamente por trazer elementos indispensáveis a minha análise.
Vamos lá...
Inicialmente reconheço que a escolha foi proposital e não uma escolha por afinidade, como assim? Pois preferencialmente me encanto com Soheir dançando um Tacksin e em edições pequenas. Contudo o que chama atenção é o paradoxo entre a qualidade de movimentação escolhida por Soheir e o uso do espaço. Se vocês perceberem vejam que ela entra se apresentando com um véu, comum na entrada em cena, mas com a evolução da música, ainda assim, opta em manter-se com deslocamentos mínimos. Para os dias atuais, digamos que causa um certo estranhamento.
Se chegarem até o ponto 3:13 do vídeo, terão uma dimensão do tamanho do palco e da disposição dos músicos. De modo que é estranho percebe-lo sem uma ocupação espacial amplificada, preenchido com deslocamentos maiores e a tendência de Soheir manter-se centralizada e próxima a sua orquestra. Devo confessar que minha coleção de informação tão habituada a arabesques, piruetas, giros e movimentações de quadril em deslocamento no espaço, me deixou mal acostumada com esse tipo de escolhas.
Mas vamos em frente...
Por outro lado perecebo que preciso reconhecer outros ganhos. E vou me dando conta que Soheir nada mais é que um antídoto para os regimes de visibilidades que estamos tão acostumadas. Pois a nossa acuidade visual amplificou-se e pede de alguma forma uma hemorragia de informações em milésimos de segundos. Basta pensarmos no que a disposição de uma tela de computador causou a nossa cognição (?). Afinal, hoje somos capazes de estar com muitas "janelinhas abertas", sejam estas MSN, Orkut, Skype, Facebbok, etc. ao mesmo tempo em que digitamos um texto, atendemos ao celular e prestamos atenção ao nosso entorno.
O que explica o modo como meu corpo (entendido como mente e corpo inseparáveis) entende como um tédio a economia de movimentos de Soheir. Afinal os meus olhos pedem uma avalanche de informações, como se fossem as janelinhas abertas na frente do computador. Juro, que ao mesmo tempo que este corpo dançava no vídeo, o meu sugeria passos e uma outra organização espacial. Demonstrando certa intolerância em aceitar escolhas outras, uma vez que estamos e somos contaminados por um HIPERTROFIA do mais, cada vez mais e mais.
Retornando ao vídeo podemos dizer que a economia de movimentos e o MINIMALISMO como uma qualidade da dança, permite que SOHEIR convide o público para o seu espaço cênico. E de forma muito pessoal converte o VIRTUOSISMO em uma POÉTICA que não somos mais capazes de indentificar em nossos dias. Talvez por isso, algumas pessoas não tenham mais paciência ou gosto pelas antigas bailarinas egípcias, o que favorece certo desprestígio do passado.
Entretanto podemos aqui dizer que é no minimalismo do movimento, na forma como Soheir executa um Shimmie em "L" (ou outro movimento aperesentado), de modo tão localizado e claro, que se estabelece uma outra noção de espaço. É a partir dessa observação, que podemos dizer que o PALCO se faz no corpo e é no corpo de Soheir que os movimentos acontecem. Como se, de fato, deslocamentos/escolhas acontecessem em outro lugar - NO CORPO e não apenas nos limites da cena: boca de cena, meio do palco, extremidades, etc. O que nos permite dizer o quanto esse corpo-palco nos apresenta apropriação técnica, ao mesmo tempo que simplicidade e singeleza (entendam minimalismo/economia como substratos para a simplicidade e a singeleza apresentada).
Continuando com essa idéia acima, podemos dizer que o MINIMALISMO não é assunto novo para Soheir, acompanha-a em muitos outros vídeos e se torna um TRAÇO PESSOAL que se corporifica em outras possibilidades. Abre portas para uma poética própria, que privilegia a leitura musical no corpo, como se este fosse uma partitura musical. Basta adiantar o vídeo para o ponto 3:16 que veremos como seu corpo se traduz ao som do acordeon e mais a frente nas pequenas marcações. Sem que fosse preciso grandes efeitos ou algo mais além do necessário para este corpo fazer-se música. É justamente, nessa particularidade, que percebemos a poética desse corpo, que faz da sua destreza/simplicidade uma escuta musical.
Soheir nos mostra um refinamento que não reconhecemos hoje, uma vez que a tendência de grandes efeitos coreográficos fez-nos padecer na ignorância de acharmos o virtuosismo como a garantia de uma boa apresentação.
Que possamos aprender sobre o quê de fato se faz preciso dar visibilidade quando se dança - outros regimes no corpo e não apenas no entorno dele (palco? roupa? efeitos musicais? iluminação? maquiagem? adereços?). Reapropriações/conduções que pedem muito estudo e trabalho em sala de aula. Talvez nessa direção encontremos um solucionamento capaz de nos deslocar da HIPERTROFIA DOS SENTIDOS, que de algum modo também embutrece nossa percepção e dificulta experimentar regimes guiados por singeleza e simplicidade. Afinal por onde andará nossa percepção fina e o gosto pelo que amparentemente não está em negrito, contudo está ali, de forma mais sútil, poeticamente falando ???!!!!!!
Quem gostou, pode me indicar outros vídeos de outras bailarinas (os)? Aceito sugestões.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

IMPRESSÕES CAPTURADAS...


"Minhas desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio" (Clarice Lispector)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

BENEFÍCIOS NA DANÇA DO VENTRE: UMA LISTA DE IN-VERDADES?


Quem não se lembra de uma lista de benefícios agregada à prática da dança do ventre? Como se fosse uma bula indicativa a informar tantos ganhos milagrosos. E que de alguma forma é incorporado ao discurso professoral na maioria das vezes que uma aluna se aproxima com a seguinte pergunta: quais os benefícios da dança?

VAMOS PARA UMA DAS POSSÍVEIS LISTINHAS...


 Desenvolve a auto-estima;
 Estimula a memória, a concentração e a atenção;
 Aumenta a confiança no seu potencial individual;
 Resgata a feminilidade;
 Ativa a circulação, aumenta os reflexos e alivia as tensões;
 Aumenta a flexibilidade e alongamento;
 Auxilia em problemas menstruais, hormonais e partos, diminuindo cólicas, equilibrando as funções sexuais e facilitando contrações e dilatações;
 Trabalha músculos, enrijecendo e tonificando;
 Atua diretamente no centro de energia do corpo, que se encontra no ventre, distribuindo a mesma de forma equilibrada.

E blá, blá, blá, blá...

Eu, particularmente adoro uma bula de remédio e me sinto muito atraída por indicativos como esses. Mas nunca pensei em reproduzir algum tipo de discurso apoiado nesses benefícios. Até porque podem se constituir in-verdades a depender de cada corpo e contexto de prática. Afinal descritos assim de forma genérica, não passam de um efeito em “suspensão” que pode ou não acontecer no corpicho. Quem saberá? Como acontecerá? Lembro-me que sempre dizia o seguinte: “na literatura está descrito que, já no meu corpo o que percebo é...”.

Assim, ao invés de reproduzir algo fora do meu corpo, sempre busquei estar atenta ao que nele acontecia. Nada mais justo usar um discurso que se apóia no conhecimento produzido no corpo e não em meia dúzia de in-verdades fora dele. (Aqui, cabe a explicação da escolha do termo in-verdade. Ou seja, uma grafia que já indica uma ambivalência contida em toda verdade enunciada. Afinal quem hoje sustenta algo como verdade absoluta? A depender do contexto, a verdade pode ser relativizada e tornar-se distinta ao que se pretendia).

Não quero com essa postagem rastrear os mitos difundidos. Fazer uma comparação prática do que a literatura descreve. Nunca fiz antes, qual o motivo de desmontar esses fetiches agora? Mas devo confessar que com a gravidez, fiquei muito curiosa com essa associação: dança do ventre x gestação. Assim como as promessas difundidas no trabalho de parto. E cada vez que vai chegando mais pertinho do nascimento da minha filha, vou me tornando meio “São Tomé de saia”, ou melhor, “de barrigão”, quero mais ver para crer. Afinal eu sempre ouvi casos de dançarinas que tiveram seus bebês como num passe de mágica, tipo: efeito pó de pirlim pim pim, olha o bebê ai gente. Chegando ao mundo escorregando igual a quiabo! Quem nunca ouviu coisas como essa?

Em meu caso, devo esperar para crer. Ainda que não seja possível, visto que por razões médicas fiz a opção de uma cesariana (com toda minha indignação!!!!). Mas quem sabe não será o meu corpicho uma prova viva de que a dança, de fato, auxilia o trabalho de parto e Maria Elisa nasça escorregando? Será?

Mas devo partilhar um ganho que não é fetiche. E se deve muito ao trabalho de fortalecimento da musculatura da lombar (quadrado lombar) no período em que me dediquei exclusivamente à dança do ventre. Pois percebi que toda a minha preocupação com o encaixe pélvico na hora da execução dos movimentos e o uso adequado da musculatura abdominal não foi em vão. Foi um serviço ao meu bem estar postural na gestação. Afinal mal tive dor lombar e estou sustentando 15 kilos a mais (minha filha é enormeeeeeeeeeeee) de forma bem suportável.

Parece que a queixa mais recorrente das gestantes: DOR LOMBAR, não encontrou abrigo no meu corpinho. Ainda que me sinta uma pata ambulante, com todo o meu eixo deslocado para frente do corpo, percebo que meu corpo guarda uma memória adquirida com a dança. E vez ou outra se auto-corrige, se alinha, se refaz. Sinceramente, só tive desconforto na lombar na época que estava finalizando o semestre do Doutorado em Sampa, justamente pelas horas destinadas em frente do computador. Entretanto agora, nessa fase final, com a sobrecarga de peso, que tenderia agravar a lombalgia, o que sinto mais são as cotoveladas e pontapés de Maria Elisa e uma leve ardor nas costelas.

De modo que, resolvi deixar esse registro aqui e escrever que o fortalecimento da musculatura lombar e a memória do alinhamento postural, é sim um ganho na dança do ventre, ainda que seu corpo passe por transformações outras e desvie do padrão adquirido com a prática. Acreditem! Esse benefício no meu corpicho se configura uma verdade construída e não descrita apenas na literatura. Por isso meninas, vamos encaixar o quadril e dançar com o abdômen para dentro. Não se esqueçam: mais a frente, uma futura gestação vai “lhe cobrar” esse ganho!

OBS: Valeu a minha paranóia de dançar com o quadril encaixado. Lembram da minha "bronca" quando percebia um bumbum desencaixado e a barriga estufada para fora? Não foi em vão....

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Miss Rodeio, Xena ou Dançarina do Ventre?



Esse figurino lhe parece familiar? Sutiã, cinturão, mangas? Pode até servir como modelito para a Dança do Ventre, digamos que... para as dançarinas que têm um gosto mais exótico. Contudo a questão que quero pensar aqui, se coloca no trânsito cultural que perpassa por áreas visivelmente distintas (A quem serve? ). Onde a figura erotizada da mulher é o assunto a ser privilegiado. E para isso não tem território particular e nem tão pouco direito de imagem como uma reserva de mercado. Tanto faz ser Miss Rodeio de Jaguariuna, Xena, Dançarina do Ventre ou Dançarina de Forró.

O passaporte em questão é "o corpicho e seu figurino" a serviço de... (podem completar com suas observações) e ponto final. Uma das hipóteses por mim levantada, se estrutura na necessidade de alimentar o mercado com as fantasias femininas que permeiam inicialmente o imaginário masculino: um corpo feminino que serve tanto a figura da dodalisca como também da "Cavaleira do Zodíaco" e que rememora a figura de Xena. Seria um CORPO MUTANTE?
Só falta agora a Miss Jaguariuna nos surpreender dançando um clássico da Dança do Ventre. Ou o mais habitual: a dançarina do ventre reduzir-se a um figurino exótico e garantir-se como uma fantasia masculina. Tornando-se cada vez mais uma tipologia corporal vendável: mutante (a serviço de muitas intenções) sem deixar de ser gostosa.
O que implica numa responsabilidade enorme para quem faz parte do campo da dança do ventre, ou seja, a responsabilidade de descolar-se cada vez mais dessas tipologias mercadológicas e comprometer-se com o objeto em questão: A DANÇA!!!!! A questão aqui imposta passa pela reflexão das escolhas feitas: dança? figurino? tipologia construída? A quem estou servindo? Justamente para que o trânsito entre essa topografia distinta (Oriente, Sertanejo e Mitologia Grega) não se sustente apenas na qualidade do figurino/embalagem do produto-corpo a ser vendido.
E que me leva a pensar em uma cena artística pouco habitual: uma dançarina do ventre se apresentando com um figurino muito simples. Será que assim deixaria de ser refém de uma embalagem? E o público começaria a prestar atenção ao que interessa? Ou os regimes de visibilidade já estão tão contaminados com estes ditames do mercado?
Para se pensar...
FOTOS:
1) Miss Jaguariuna-SP
2) XENA

domingo, 25 de julho de 2010

SOBRE AMOR, ROSAS E ESPINHOS...


SOBRE O AMOR, ROSAS E ESPINHOS...Amor que é amor dura a vida inteira. Se não durou é porque nunca foi amor.

O amor resiste à distância, ao silêncio das separações e até às traições. Sem perdão não há amor. Diga-me quem você mais perdoou na vida, e eu então saberei dizer quem você mais amou.

O amor é equação onde prevalece a multiplicação do perdão. Você o percebe no momento em que o outro fez tudo errado, e mesmo assim você olha nos olhos dele e diz: "Mesmo fazendo tudo errado eu não sei viver sem você. Eu não posso ser nem a metade do que sou se você não estiver por perto."O amor nos possibilita enxergar lugares do nosso coração que sozinhos jamais poderíamos enxergar.

O poeta soube traduzir bem quando disse: "Se eu não te amasse tanto assim, talvez perdesse os sonhos dentro de mim e vivesse na escuridão. Se eu não te amasse tanto assim talvez não visse flores por onde eu vi, dentro do meu coração!"Bonito isso. Enxergar sonhos que antes eu não saberia ver sozinho. Enxergar só porque o outro me emprestou os olhos , socorreu-me em minha cegueira. Eu possuia e não sabia. O outro me apontou, me deu a chave, me entregou a senha.

Coisas que Jesus fazia o tempo todo. Apontava jardins secretos em aparentes desertos.Na aridez do coração de Madalena, Jesus encontrou orquídeas preciosas. Fez vê-las e chamou a atenção para a necessidade de cultivá-las.Fico pensando que evangelizar talvez seja isso: descobrir jardins em lugares que consideramos impróprios.

Os jardineiros sabem disso. Amam as flores e por isso cuidam de cada detalhe, porque sabem que não há amor fora da experiência do cuidado. A cada dia, o jardineiro perdoa as suas roseiras. Sabe identificar que a ausência de flores não significa a morte absoluta, mas o repouso do preparo. Quem não souber viver o silêncio da preparação não terá o que florir depois...

Precisamos aprender isso. Olhar para aquele que nos magoou, e descobrir que as roseiras não dão flores fora do tempo, nem tampouco fora do cultivo.Se não há flores, talvez seja porque ainda não tenha chegado a hora de florir. Cada roseira tem seu estatuto, suas regras...Se não há flores, talvez seja porque até então ninguém tenha dado a atenção necessária para o cultivo daquela roseira.

A vida requer cuidado. Os amores também. Flores e espinhos são belezas que se dão juntas. Não queira uma só. Elas não sabem viver sozinhas...Quem quiser levar a rosa para sua vida, terá que saber que com ela vão inúmeros espinhos.Mas não se preocupe. A beleza da rosa vale o incômodo dos espinhos...
O que destaco aqui é a seguinte frase: "Quem não souber viver o silêncio da preparação não terá o que florir depois". É o que mais busco ultimamente: silêncio, acolhimento, tranquilidade... interiorização... para chegada de minha filha. Minha rosa. Chega de disperção. Pois vivemos num mundo que o tempo todo somos levados a disfocar, a dispersar... a se stressar com pequenas coisas e com isso, deixar de enxergar os jardins secretos no deserto. E você, o que mais gostou?

segunda-feira, 5 de julho de 2010

QUAL O FETICHE MAIS HABITUAL DO BALÉ CLÁSSICO?




Inspirada no post intitulado como – A dança do ventre. Cadê o ventre? -publicado pela minha amiga belly dance Lorena no seu Blog (An)danças de Lory (http://andancasdelory.wordpress.com/), arrisquei-me a refletir na questão-título acima.

Uma tarefa que me fez revisitar meus 13 anos de balé clássico e tirar do baú sonhos, moldes, espetáculos, falas, etc. que moldaram minha menina-bailarina. E desde que me fiz gente no balé clássico, SEMPRE, ouvi a seguinte frase: “o balé é a base de qualquer dança”. Assim como outras na mesma direção, como por exemplo: “quem faz balé pode dançar qualquer coisa”. De modo que cresci na dança com esse fetiche, como se tivesse em mãos um passaporte poderoso para o trânsito no universo da dança.

Entretanto, na prática a situação foi bem diferente, a começar pelo meu ingresso em 1995 na Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia. Onde de imediato foi desmontado esse fetiche, nas aulas de dança moderna. Nas quais a necessidade de estabelecer outro tipo de experimentação com o nível baixo, por exemplo, com as quedas e recuperações, me mostrou o quanto meu corpo não tinha disposição para tal aventura. Afinal foi montado em cima da meia-ponta ou sapatilha de ponta, dentro de uma verticalidade imposta na dança clássica. Devo confessar que sofri muito para dialogar com outras linguagens e permitir que meu corpo fosse aberto a outras línguas, sem a hegemonia do balé.

De modo que ainda fico a me perguntar o que sustenta tal fetiche? Se hoje temos uma profusão de outras experimentações na dança, abertas a diversas instruções que não sejam as hegemônicas? Uma vez que se busca localizar o processo de conhecimento e experimentação a partir da proposta artística de cada dançarino-criador-interprete, sem a imposição de senhas (técnicas pré-dadas). Tem-se uma tendência de mesclas artísticas ou não. Com as aproximações/fusões entre as instruções da dança a educação somática, técnicas circenses, lutas marciais, práticas esportivas, entre tantas outras.

O que importa é pensar qual a demanda do processo criativo? Que línguas o corpo precisa falar para dar conta da obra. Afinal cada obra fala por si. Justamente pela “necessidade” de referências situadas no contexto de criação da obra. Assim, se a lógica compositiva de determinada obra se mescla com uma tônica circense, que tipo de instrução cabe na composição? Caberia, de fato, o balé clássico? Ou a capoeira? Ou a técnica de tecido? Ou...

Qual é o ponto então?

Que não dá mais para universalizar as instruções da dança como verdades absolutas. Ainda mais quando se compreende o corpo como instância indissociável do seu ambiente. De modo que é preciso pensar o que o corpo faz com as informações que ele tem acesso? E que talvez, nem todas sejam apropriadas para o processo criativo na dança em curso.

Inquietações que me fazem refletir porque tal fetiche encontra abrigo tão estável na dança do ventre. Migração que não vem de agora e sim do período do Cabaré de madame Badiaa (ver outra postagem nesse blog– Você tem fome de quê? Em 06 de fevereiro de 2010). Que de vez em quando retorna ao mercado como uma propaganda efetiva que reforça o discurso GENERALISTA, de que o balé clássico é capaz de dar grandes contribuições para a dança do ventre. Quer uma prova? Basta ver a quantidade de cursos que surgiram nesse sentido. Lá vai... “CURSO INTENSIVO DE BALÉ CLÁSSICO PARA DANÇA DO VENTRE” (Estudo de aprimoramento de técnicas clássicas aplicadas na dança do ventre. Com os seguintes temas abordados: giros, saltos, arabesques, cambrés, resistências e execução dos passos, chasé como forma de deslocamento, etc.)

Não quero, aqui, fazer um des-serviço do balé clássico a dança do ventre. Afinal sabemos e o meu corpicho sabe, que a minha linda meia-ponta foi uma habilidade adquirida no balé clássico, assim como minha postura, facilidade para os giros e belas terminações, como as dos braços e pés (quer coisa mais feia que um pé torto na dança?). Mas... É preciso muita calma nessa hora. Pois assim como tive ganhos situados com a técnica do balé clássico e digamos essa constatação referenda o curso acima, como uma possibilidade de contribuições específicas, é preciso pontuar que também tive perdas. Ora, a primeira se configura em relação à força de gravidade (peso) necessária para execução da dança folclórica. Como executar um Baladi, que se estabelece pela relação de pertença com a terra e se utiliza do contato/peso nos pés, tendo como informação a leveza do balé? Assim como esta, muitas outras perdas somam à lista (dar uma olhadinha nas gravuras postadas a cima).

Essa breve descrição acima serve para localizar que tipo de instrução deve-se entrar em contato. E que serviço presta? Para não cair na cilada que o corpo precisa ser poliglota, ou seja, falar TODAS as línguas. E que qualquer língua/informação é bem-vinda.

É preciso aceitar o fato de que certos fetiches não são mais pertinentes – e, por extensão, demarcar quais deles são considerados escolhas/línguas/informações pelos corpos que dançam. Para quem sabe, com esse tipo de entendimento, se possa responder de forma mais tranqüila que tipo de informação está no corpo que o permitiu dançar daquele jeito? Com o intuito de desmontar discursos hierárquicos e universais, que tendem a privilegiar determinadas instruções a despeito de outras.

terça-feira, 29 de junho de 2010

O QUE FAZ VOCÊ FELIZ?


Desde que entrei num Programa de Pós-Graduação em Comunicação, digamos que... passei a ser mais crítica quanto a forma em que a mídia divulga uma informação. Perceber que discurso ideológico está por trás de uma ingênua propaganda, por exemplo. Que de ingênua, não tem nada. Se configura mesmo, como um dispositivo de captura das nossas ações, desejos e modos de ser no mundo.

É incrível perceber o modo como o campo da publicidade e propaganda tem investido pesado nas emoções do seu público-alvo. Pois, através dos estudos avançados da NEUROCIÊNCIA, se tornou incontestável a participação das emoções nas tomadas de decisão. Antes, vista como o lado "não confiável" do ser humano, hoje, as sensações sensoriais e as emoções, são necessárias para os processos de cognição. Pois não existe NADA no corpo que não passe pelo sensório-motor. Até mesmo a decisão mais RACIONAL do mundo.

Assim... vocês devem concordar comigo, no modo como o formato das propagandas hoje investem na captura da nossa subjetividade. Desde a propaganda de uma marca de margarina, de um carro, até... de supermercado.

Eu, que sou a pessoa, mais BLINDADA no que se refere aquele objeto de quatro rodas.... Ahhh, automóvel!!!! Sem desejos consumistas (do tipo: qual o carro dos seus sonhos?) e impossível de memorizar uma marca, indústria automobilística, etc. Devo confessar, que fui capturada por uma dessas últimas propagandas de carro vinculadas na TV. Sabe aquela em que o pai leva a filha para o casamento? E que ao final, ele confessa que emprestou o carro da filha? Sim... Pois, pois... eu chorei! Fiz de imediato a associação com meu pai e me detetive na propaganda, sendo capturada pela lembrança paterna. Caso contrário, seria mais uma propaganda deletada no controle remoto. Afinal, carro não faz parte da minha lista de sonhos.

E desde modo, somos capturados sem perceber.... ou mesmo percebendo.

De modo próximo... sem choro, claro, devo dizer o mesmo da propaganda de uma rede de supermercado, que lança a seguinte pergunta: O QUE FAZ VOCÊ FELIZ? Que, aqui, parabenizo pela inteligente associação de felicidade, consumo e a rede referida.

Pergunta ou dispositivo de poder (?) imposto de uma forma tão sútil, cantada na voz do nosso ex ministro Gilberto Gil, que embala os nossos desejos mais consumistas. Desde um sorvete a uma marca de shampoo ou até mesmo uma pitza "emborrachada" embalada em uma caixa de papel colorida. Tanto que ao final da propaganda, entre memórias de infância, desejos intímos, projeções futuras... Olha lá você, transportada para o SUPERMERCADO, se imaginando dando uma voltinha para satisfazer uma "felicidade imediata".

Entretanto, hoje fiz um exercício contrário. Ao invés de dar uma voltinha no "super", preferi me fazer essa pergunta como um CONTRA-DISPOSITIVO do consumo. E fiquei pensando: o que me faz feliz??!!!!!

Estou com ela, ecoando em meu "corpicho". Tanto que já escrevi várias respostas. Também apaguei. Assim como, pensei que a noção de felicidade é totalmente co-dependente do nosso campo de percepção. Ou seja, a noção de felicidade se transforma. E sendo transitória, relaciona-se ao campo de informações que compõe a nossa vida em determinado momento.

Então vamos lá... vamos a listinha, sem pensar em hierarquias:

O QUE FAZ VOCÊ FELIZ? (ecoando na voz de Gilberto Gil)

- Sentir minha filha chutando dentro da barriga,

-Dançar, sempre...

-Ouvir música árabe, evangélica, blues, MPB, etc.

-Ouvir Roberto Carlos no maior volume fazendo a faxina na casa;

-Dormir abraçada com meu marido;

- Estar em família,

- Ver o mar na orla da barra, descendo o Cristo...

- Andar descalça,

- Comer acarajé com camarão,

- Ler um bom livro,

- Ouvir Helena Katz falar (em aulas, em seminários, etc.)

- Tomar banho,

- Conversar com amigos e colocar a "fofoca" em dia,

- Colo de mãe,

- Louvar a Deus,

- Dar aula de Dança (prática - teórica),
- Fazer justiça,

- Estender a mão ao próximo (coletivo que fazemos parte),

- Escrever,

- Fazer uma comidinha para o maridão, ser uma amélia, confesso!

- Uma boa aula de pilates,

- Dançar em volta de uma fogueira,

- Amar e ser amada,

- Conviver com meus bichos (Pandora e Quito),
- Receber do marido massagem nos pés,

- Saber que a vida/felicidade é feita de coisas simples....


E VOCÊ???

sábado, 19 de junho de 2010

TCE SOBRE DANÇA TRIBAL: UMA PESQUISA QUE INAUGURA UM CAMPO DE ESTUDO EM SALVADOR


Na quinta passada, 17 de dezembro de 2010, fiz parte da banca examinadora do trabalho de conclusão de estágio da dançarina-pesquisadora Joline Andrade, orientanda da Profa. Virgínia Chaves, graduanda do Curso de Licenciatura em Dança da Univerrsidade Federal da Bahia. E gostaria de usar esse espaço para compartilhar com vocês essa experiência, afinal temos o dever de divulgar iniciativas comprometidas em tratar a dança como objeto de pesquisa, fora do senso comum.
Em primeiro lugar, devo parabenizar a Escola de Dança da UFBA, por estimular seus alunos pelo viés da pesquisa artística e acadêmica. Num fazer, onde prática e teoria andam imbricados. Sem dicotomias que colaboram para a hegemonia de entendimentos como o de quem faz dança, não precisa pensar, apenas sentir. Assim, o que deveria ser um TCE, no formato de um relatório de estágio supervisionado, apresentou-se como um estudo crítico reflexivo sobre uma prática. Com uma rica argumentação teórico-prática sobre a dança tribal fundamentada por uma filiação teórica, que não deixa nada a desejar aos esboços iniciais de uma pesquisa de pós-graduação. Tanto que, o estudo inicial feito por Joline, com alguns ajustes poderá se transformar facilmente num pré-projeto de seleção de mestrado.
Em segundo lugar, gostaria de parabenizar Joline pelas articulações teóricas apresentadas no texto. Que muito se devem ao seu percurso na Universidade, pois é perceptível o modo como o acesso (aproveitamento) ao conhecimento no ambiente da graduação, faz, SIM, toda a diferença. Pois, fui professora substituta dessa disciplina - PRÁTICA DO ENSINO DA DANÇA e, devo confessar que cada aluna (o) opta por diversos processos de reflexão. Alguns, constroem conexões muito iniciais, enquanto outros, conseguem dar saltos significativos. Sem que isso, seja uma avaliação hierárquica, entretanto, é preciso pontuar as diferenças.
Vamos ao TCE...
A começar pelo título:
DANÇA TRIBAL: PLURALIDADE ÉTNICA E FUSÃO CONTEMPORÂNEA
Achei muito interessante essa idéia trazida de imediato, ou seja, a dança tribal como uma configuração plural e em fusão. Que no decorrer do texto é explicado a partir dos rastros de algumas matrizes culturais que constituem a dança tribal, repropostas como identidades MIXADAS (muito bom essa definição) que se organizam em processos de fusão.
A arquitetura teórica:
A análise dos dados coletados durante o estágio e a construção do texto se deu a partir " das teorias do hibridismo e mestiçagem nos estudos de sociologia de Serge Gruzisnki e Peter Burke, na concepção de identidade cultural na pós-modernidade desenvolvida por Stuart Hall, no entendimento da Complexidade através do sociólogo/antropólogo/historiador Edgar Morin, nos estudos da sociedade de consumo de Jean Baudrillard e finalmente em autoras que organizam estas e outras informações no pensamento sobre a dança como Helena Katz, Christine Greiner e Laurence Louppe". (trecho extraído do resumo)
Conexões apresentadas:
- O ENTENDIMENTO DA NOMECLATURA TRIBAL (a partir da idéia de tribos);
- A EVIDÊNCIA DA MESCLAGEM PRESENTE NA FORMAÇÃO DA DANÇA TRIBAL;
- HIPÓTESES PARA A PREDOMINÂNCIA DE ELEMENTOS DA DANÇA DO VENTRE (70%) NA ORGANIZAÇÃO DA DANÇA TRIBAL, A PARTIR DE FENÔMENOS DE ADAPTAÇÃO E APPROPRIAÇÃO EXPOSTOS POR PETER BURKE (LIVRO HIBRIDISMO CULTURAL, 2003);
- A CONSTITUIÇÃO DA DANÇA A PARTIR DE IDENTIDADES (MÓVEIS E EM RELAÇÃO), NOMEADAS COMO IDENTIDADES EM FRACTAIS;
- UM ESBOÇO DE DISCUSSÃO SOBRE O CORPO FEMININO, CORPO ERÓTICO E CORPO DE CONSUMO NA DANÇA TRIBAL E NA DANÇA DO VENTRE (constitutiva da dança tribal) PELO FILTRO DE BAUDRILLARD (1991);
- UMA ARTICULAÇÃO CONCEITUAL E ESTÉTICA ENTRE A PERFORMANCE UTILIZADA POR NEY MATOGROSSO (durante a sua atuação no grupo Secos & Molhados, 1973-1974) E AS PERFORMANCES DE DANÇA TRIBAL REALIZADAS NOS ÚLTIMOS ANOS. PELA ÓTICA DO HIBRIDISMO, PERFORMANCE E MOVIMENTOS DE CONTRA-CULTURA.
Conexões e reproposições que me fizeram pensar e propor para Joline alguns desdobramentos para pesquisas futuras. Pois, acredito que um bom trabalho tem essa função, inicialmente ensinar o outro, já que é uma produção de conhecimento e não apenas uma informação a ser acessada, como também servir como ignição para outras trilhas. É por isso que a noção de autoria é reproposta hoje, como co-autoria, uma vez que quando a informação caí no mundo, ela caminha com pernas próprias e instiga o outro a produzir/propor juntamente com o autor inicial. E assim, segue minhas proposições...
- Pensar sobre mecanismos para potencializar a tendência de mesclagem da dança tribal como um andítodo para padtonizações. Pois, AINDA que, hoje se tenha uma diversidade estilisca muito grande, como a exemplo das fusões californianas: o jazz fusion, gothic tribal fusion, vintage bellydance, balkan fusion, afro-bellydance fusion, entre outras, percebe-se um movimento de padronização das coreografias como produtos de mercado. O que de alguma forma implicaria numa produção em massa, principalmente pela mídia, gerando estabilidade aos processos de replicação e a depender, uma "perda" das mesclas COMO transformações contínuas.
- Refletir sobre a armadilha criada em torno da exotização da dança tribal. Pois, se por um lado a dança tribal coneguiu romper com as estratégias de erotização feitas com a dança do ventre, hoje torna-se refém de ser etiquetada como um produto exótico. Uma tendência mercadológica de sublinhar o exótico (assim como foi feito com as culturas distintas do colonizador, basta lembrar do que foi feito com os nossos índios), reforçando uma leitura reduzida de um fenômeno. Ou seja, achata-se a complexidade da dança e sublinha o exótico que o outro lê. E muitas das bailarinas, talvez, têm seguido essa tendência. Muito observado na forma como valoriza o apresentar-se na dança, o figurino e a maquiagem, sem dar a mesma "atenção" aos processos investigativos do corpo. A questão aqui posta é a redução da complexidade da dança e a produção em massa de uma dança caricatural. Enfim, muitas vezes uma dança que atende a consumo mercadológico e não ao entendimento de produção artística. Como ESCAPAR dessa armadilha?
- A idéia de performance contida na dança tribal. Algo a ser explorado, principalmente a partir dessa articulação com o "performer" Ney Matogrosso. Seria o sentido performativo uma estratégia de sobrevivência da dança tribal?
Enfim, essas são as minhas inquietações.
Espero que Joline possa difundir sua pesquisa e contribuir para ampliação do entendimento sobre a dança tribal. A chamada no blog é apenas um passo inicial. Recomendo para quem se interessar, tentar entrar em contato com essa pesquisadora, que corajosamente inaugura um campo de pesquisa.

domingo, 13 de junho de 2010

E por falar em saudade...




FEIRA DIAMANTINA-MG

Hoje pela manhã, como de costume no domingo, após o café...passo um bom tempo lendo o Jornal A tarde (Salvador-Ba). Um ritual herdado de meu pai. Que começa com a espera da senhora, que entrega há mais de 10 anos o jornal em nossa porta. Folheio cada página... mas sigo uma ordem costumeira. Inicialmente vou para as colunas de Malu Fontes e Danuza Leão, para depois ir para a revista MUITO, seguida da revistinha da TV, matérias da 1ª página e a seção policial. E ao me deparar com a coluna de Danuza Leão entitulada, "Por falar em saudade", de imediato pensei em usar o texto escrito como inspiração para um post aqui no blog. Peço desculpas, por ter copiado o título, que veio também da música - Onde Anda Você, do nosso poetinha Vinicius de Moraes. Contudo, quero deixar claro que a minha saudade não tem nada haver com os hábitos por ela abordados, ou seja, fumar um cigarro e tomar uma boa e velha dose de uísque, mas são sensações, sabores, cheiros, sons, paisagens... hábitos incorporados nessa minha vida em trânsito nesses últimos 3 anos.

Quero, aqui, transitar por esse recorte temporal e geográfico, para não correr o risco de ir longe demais e chegar até a década de 80. Com todas aquelas maravilhas que conhecemos e hoje, se tornaram acervo de muitos adultos-jovens que fazem o tipo meio descolado e "retrô" (devo confessar que sou simpatizante dessa categoria). Ai saudade da década de 80! Mas deixa lá...saudades e mais saudadades...

De 2008 a 2010 venho acompanhando meu marido nas suas remoções pelo território nacional. Em 2008, moramos em Diamantina (MInas Gerais) já em 2009 fomos de Campinas (São Paulo) e para Paulo Afonso no interior da Bahia. Sendo que neste ano estive em trânsito entre Salvador, Paulo Afonso e São Paulo, onde faço o Doutorado em Comunicação e Semiótica-PUC. Vida cigana que me faz experimentar de um tudo. Não ter pudores em incorporar hábitos locais e me dar o "luxo" em ser uma cidadã em trânsito.
De cada lugarzinho que passei, tenho uma lista de "saudades"... E se pudesse encontrar o "gênio da lâmpada" pediria um único desejo: uma mescla dessas experiências sem que tivessem tempo para acabar.

A começar por...
Diamantina- MG
- O café acompanhado de bolo de milho e pão de queijo do CAFÉ MINEIRO.
- As conversas na porta de casa, na lojinha de Sâmia.
- A feira no sábado, com as verduras deliciosas e fresquinhas, regada de "cachaça", pestiscos e música sertaneja para aguentar o frio.
- A missa na Catedral de Santo Antônio.
- A minha varanda, na qual ficava igual a jacaré tomando sol.
- Das amizades que fizemos ali.
Campinas-SP
- A nossa casinha tão aconchegante(a cozinha enorme).
- Minhas experimentações como dona de casa e cozinheira.
- Os passeios pelo Cambuí.
- As aulas de yoga e Pilates na acacdemia, na esquina de casa.
- A pitza de cebola, shimeji e shitake da Pizzaria Brás.
- A confeitaria Romana.
- As noites de frio regadas a vinho casal Garcia e Fondue.
- O trânsito livre.
- As amizades que fizemos ali.
São Paulo (período do Doutorado)
- Do convívio semanal com minha querida orientadora, Helena Katz (a pessoa mais generosa que conheço do meio acadêmico).
- Dos domingos na Igreja Batista Perdizes.
- Da PUC em todos os sentidos: CED, aulas, biblioteca, amizades...
- Da feira as terças-feiras na Rua Ministro Godói.
- Da broinha com café na cantina do 5º andar na PUC, na companhia de Amanda, Leila e Andréa.
- Da grade de possibilidade de espetáculos de dança, durante toda a semana.
- Do frio, que de alguma forma nos proporciona diversos prazeres: chocolate quente, cobertor e um bom livro e a vontade de não sair da cama.

Não vou aqui, escrever sobre Paulo Afonso... Porque por agora, não significa uma passagem em nossas vidas... mas devo confessar: que morro de vontade de ficar na minha casa ampla e de saudade da cidade tranquila, onde se pode transitar de carro sem engarrafamento.
E com relação a sampa, devo voltar outras vezes, afinal ainda tenho que retornar para a qualificação e defesa. A "broinha" do 5º andar que me aguarde!
Mas sinceramente, se pudesse viveria todos esses lugares-pessoas, gostos, sensações no AQUI E AGORA.
E POR FALAR EM SAUDADE... do que você sente falta?

terça-feira, 1 de junho de 2010

Felicidade antecipada...


“No dia seguinte o príncipe voltou. Teria sido melhor se voltasses à mesma hora – disse a raposa. _ Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade"!

FONTE: O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry

O amor tem dessas coisas... independente das suas rotinas e fases. Sempre é tempo de ter o coração batendo a espera do amado. E não tem jeito... a felicidade vem antecipada às três horas da tarde, na noite de insônia que antecede a sua chegada, nos cuidados com o visual, com a casa... Me encontro assim: feliz! De pijamão, cobertor e meias. Ainda que essa felicidade não combine com o céu cinza e o frio de sampa. Tem mais a cara do sol de Salvador, não é? Uma tarde no Rio Vermelho comendo acarajé e olhando para aquele mar. Enfim, seja aqui ou em qualquer lugar, que o amor possa nos trazer dias felizes e noites com sol...

sábado, 29 de maio de 2010

UMA BOA DICA: A HISTÓRIA DO CORPO


Para quem se interessa pelo corpo como assunto de estudo, essa é uma boa dica: História do Corpo, com os organizadores Georges Vigarello, Alain Cobin e Jean-Jacques Courtine, 3 volumes, da Editora Vozes.
Sinopse:
A obra 'História do corpo' mobilizou dezenas de historiadores para afirmar a centralidade do corpo como objeto de estudo da história humana. A caixa é composta de três volumes que revelam o quanto as práticas, os objetos, as técnicas, os olhares e as representações se recompõem em temas como a alimentação, as relações familiares, a higiene, a prostituição, os esportes, a beleza e a estética, o pudor, a saúde e a medicina, o imaginário e as crenças, as ciências, os papéis do gênero, a sensibilidade e as artes, a cultura e a religião, enfim, como evoluíram historicamente as noções e as formas de se relacionar com o corpo em todas as áreas do conhecimento, na cultura e na sociedade desde a Renascença até o século vinte.
Fonte de Consulta: Livraria Cultura
Esse é um tipo de investimento que vale muito! Eu recomendo, porque comprei. Aproveitem!

LEMBRETES COMO ANTÍDOTO PARA O LUTO ESTENDIDO


Ultimamente a saudade de meu pai tem sido um grande aprendizado para mim. Um desafio para não migrá-la junto a outras sensações, como por exemplo, a melancolia, que insiste vir junto com a alegria que se corporifica com a presença de Maria Elisa. Pois, quem diz que a saudade se dilui com o tempo, se engana. Em minha opinião, ela migra, traveste-se de outras circunstâncias e emoções. Agora mesmo, não tem como desviar-se, saudade-melancolia que antecipa a ausência de meu pai no dia do nascimento de sua neta.

Muitas questões me invadem e invadiram em todos os momentos em que a saudade vem/veio visitar-me travestida em música, lembranças de infância, sonhos, presenças... E a maior dela resvala em uma ilusão: se de fato existe algo a ser feito para que a saudade não retorne de forma tão cortante no decorrer das nossas vidas. De forma menos cifrada, eu diria: existe alguma possibilidade de vivenciar um luto menos estendido? O que deve ser feito, afinal?

Ahhh já me perguntei tantas vezes isso... Já me culpei tanto... O fato de não ter tido a coragem de chorar o que meu luto pedia. O modo como encarnei a leitura feita por meu pai - da filha organizada e segui como de costume, organizando documentalmente a família. Preferi seguir em busca do atestado de óbito, pensão para minha mãe, acertos do sepultamento, etc. Culminando com a defesa do mestrado em dança dois meses depois, sem ao menos me dar a chance de escolher aquietar-me e elaborar a dor de outro jeito.

Acredito que seguir nesse fluxo de ações, talvez tenha sido a forma possível para lidar com a perda do meu pai. Pois de acordo com o cientista Fred Drestke, seguir em movimento é uma escolha cognitiva para categorização da experiência. Digamos que um modo de organização, onde os acontecimentos seguintes funcionariam como uma ordenação necessária para colocar as coisas no lugar.

Contudo, ainda me pergunto: será mesmo? Ou seguir no fluxo nada mais é que uma ficção devastadora, que no futuro quer você queira ou não, lhe cobrará um outro tipo de elaboração que não foi feita? Seguir em fluxo cria de fato deslocamentos? Muda a saudade de o lugar? Modifica?
...
Como entendo que nos primeiros momentos somos capturados pela dor da perda e pelo entorno, que para mim foi vivenciado como um espaço preenchido/esvaziado por solidão, silêncio, vozes, memórias, palavras descabidas, afetos, etc. Resolvo aqui, escrever algumas palavras, como uma tentativa de romper com esse seqüestro violento imposto pela própria situação. Pois é impressionante o que se diz e o que se faz em estado de perda. Muitas vezes pela impossibilidade de lidar com a falta de resolução instantânea. Resolução esta a ser almejada por muitos anos depois. Olha eu, aqui, dois anos após a morte de meu pai enfrentando o fantasma de algum tipo de solucionamento. Sendo revisitada constantemente pela saudade...

Sinceramente, não quero que minha voz chegue de maneira pretensiosa. Ou mais uma vez entendida como uma voz acadêmica. Não! Que seja entendida como um lembrete, endereçado primeiro a mim mesmo. Pois escrevo inicialmente, para mim. E ainda que atualmente peça ajuda aos meus livros, como um resíduo de elaboração, entendo que cada um lança mão do que lhe é possível. Eu, por exemplo, sigo de mãos dadas com Deus. Ele é meu conforto e um modo de comunicar-me com meu pai. Contudo, ontem em plena aula de doutorado, foi impossível escapar dessa conexão, ou seja, o luto e o entendimento de mobilização infinita proposto pelo filosofo alemão Peter Sloterdijk.

Ahhh pessoas... É impressionante como cada dia mais entendo que vivemos em rede. Se nosso corpo funciona em rede, o que podemos dizer das temporalidades? Quando se entende que os tempos são dimensões em rede, encontro um tipo conforto para esse ir e vir dos tempos e acontecimentos. Não tem como escapar! Pois, não existe a idéia de um passado fixo lá no ano de 2008 e do presente com o que se vive em 2010. Os anos de 2008, 2009 e 2010 são dimensões que se atravessam, num ir e vir dos tempos e acontecimentos. A questão é: como seguir nesse ir e vir dos tempos sem se tornar seqüestrada pela idéia de acontecimentos em suspensão? Chega de atormentar-me com inquietações que jamais terei solucionamento. Ou seja, do que fiz, do que deixei de fazer nos dias que se seguiram ao sepultamento de meu pai em outubro de 2008.

Creio que se existe alguma possibilidade de redenção para minhas inquietações, esta não se encontra na suspensão dos acontecimentos ou do retorno ao passado, e sim na possibilidade de aprender com o que foi vivido e está sendo feito, re-encenado a todo instante.

Assim, ouso-me a escrever meus aprendizados (sempre inacabados) na forma de lembretes. Um marcador, post-it, que mais uma vez digo: um tipo de serviço prestado primeiramente a mim mesmo. Lembretes a serem lidos, aqui no blog, toda vez que a saudade vier me visitar.

1º LEMBRETE
Não existe a possibilidade de colocar um ponto final na saudade e seguir adiante. Saia desse lugar de que é preciso por fim as coisas, para dar um passo à frente. A questão não se encontra em travestir a saudade de epílogo e passar para o capítulo seguinte, e sim fazer dessa convivência o ponto de seguimento para outras escritas. É ilusão pensar que o ponto final é a garantia de ZERAR a saudade.

2º LEMBRETE
O automatismo cinético, essa busca de estar sempre em fluxo, em movimento, não solucionará a perda. É uma ilusão pensar que estar em ação, nesse período de perda, resolverá o luto. Ainda mais quando somos encorajados por frases como:
“Que é preciso ficar bem”
“O tempo ajudará”
“Nada melhor que um dia após o outro”
“É preciso prosseguir”

É preciso estar atento que a captura pela mobilização infinita, idéia trazida por Peter Sloterdijk, na qual todos nós precisamos estar em movimento, dentro de um fluxo de ações que não cessam, se configura numa estratégia para não se vivenciar o luto. UMA ILUSÃO, TALVEZ. Será mesmo que no momento de perda, se faz necessário prosseguir? Ou dar um tempo para se vivenciar a dor?

Talvez, essas frases ditas e repetidas por nós são discursos que reforçam a pressão do NÃO ACONTECIMENTO DO LUTO. Afinal, o estar em movimento, dá a falsa sensação de encurtamento do luto e até de superação. E que no meio do fluxo, na etapa seguinte, se está a garantia de solucionamento do luto. Saiba: Não existe solucionamento para o luto. Nem encurtamentos. Você carregará o luto para sempre.

Volte-se para o seu corpo. Para o que ele pede. Chore. Corra. Grite. Dance o luto. Sei lá... Seja corajosa e honesta com o seu desejo nesse momento. Cair na cilada da ilusão tem um preço muito alto. É preciso coragem para seguir sem buscar saídas elegantes: como a de se zerar o luto e a saudade.

O importante é reconhecer onde você está e o que está fazendo. Mesmo que opte em seguir em movimento. Não vejo problema nisso. O problema consiste no não reconhecimento de que muitas ações são ilusões e que sinceramente, não são solucionamentos permanentes.

3º LEMBRETE
Não se culpe, não se atormente pelo que não foi feito. Saiba que tudo que se fez, o MAIS aqui, sempre será sinônimo de MENOS. Que sempre você será seqüestrado por essas dívidas eternas. A palavra que não foi dita. A ação que deixei de fazer. Tantas outras coisas. Saiba: se todos os seus atos foram feitos por amor, isso é o que importa. É no amor que encontramos a redenção de qualquer tipo de aprisionamento.

4º LEMBRETE

A melhor escolha é reinventar a convivência. Impossível na forma física, que tal na forma de lembrança? São nas lembranças diárias que se abrem outras formas de seguir. Lembrar-se de acontecimentos da infância, viagens, frases, o cheiro, o tom da voz, a cor dos olhos... uma música? São infinitas formas de lembranças-convivências que podemos abrigar internamente em nós. Não apenas como lembranças-ausências, e sim como centelhas de meu pai renovando-se a cada dia em mim. Quem sabe, assim a saudade não vem travestida de uma presentificação gostosa e não apenas sofrida? Hoje, sou responsável em habitar o imaginário de Elisa com lembranças doces do avô e não apenas com a sua ausência dolorida que se anuncia com a chegada do parto.

5º LEMBRETE
A morte não é o fim da comunicação. É preciso desmontar esse entendimento que a comunicação só acontece na forma de diálogo verbal com os corpos em vida. Aqui, tendo me libertar das formas habituais de comunicação. Para pensar a comunicação em outro lugar. Pois meu pai está em mim. Comunica-se comigo todos os dias. Basta olhar-me no espelho e ver o formato do meu rosto. A sua herança no meu corpo, é sem dúvida, uma forma de diálogo diário. Sem falar de outras crenças. A quem acredite, que a morte não esgota a comunicação entre as dimensões. Enfim... eu já senti meu pai ao meu lado, em uma frase que surge na minha tela mental, em uma música e em muitos sonhos...

6º LEMBRETE
O laço mais forte entre pais e filhos é o AMOR. Não me proponho a escrever sobre esse sentimento tão pessoal. Apenas quero lembrar-me que diante de qualquer saudade que me aflija nesse momento, eu tenho também a escolha de preencher-me internamente com o amor construído com o meu pai. E antes que o amor se ponha a serviço da dor, faço a escolha inversão:
Amor como gosto bom
Amor como forma de re-ligare
...
E a certeza do quanto fui amada por ele.

7º LEMBRETE
O tempo me dirá... ou quem sabe você, que está lendo esse post?





quinta-feira, 27 de maio de 2010

Por onde andará a sua menina-bailarina?




Digamos que, foi por correr atrás desse sonho que hoje me encontro aqui. Larguei a profissão de Médica Veterinária e fui fazer faculdade de dança, tornei-me professora/dançarina e Mestre em Dança pelo PPGDANÇA-UFBA. Tantas trilhas para chegar até o doutorado, que posso dizer: minha menina bailarina sobreviveu pela sua insubordinação. O seu "tutu" foi substituido por muitas coisas: pés descalços, saia cigana, xale de dança do ventre, sapato flamenco, articulações, corpo nú e muitos livros... e hoje creio que continua sendo os livros, uma vez que com eles encontro possibilidades de chegar a mais uma etapa desse sonho: o Magistério Superior.

Hoje um pouco endurecida pelo regime acadêmico, reivento-me por outro sonho: pela possibilidade de compartilhar com minha filha o gosto pela dança e música. Olha que louca! Minha filhota nem nasceu! Mas já me vejo com cara de boba indo buscá-la na escola de balé e arrastando os móveis para dançar com ela. É claro que, com uma pitada de insubordinação! O que será feito do seu "tutu"? Penso em muitas coisas... mais o que vale é experimentar... do balé a capoeira... ou quem sabe nada disso? Talvez a minha menina- bailarina esteja apenas em mim e não continuará em minha filhota. Nem adianta dizer que: filho de peixe, peixinho é. Deixa a dança nos levar...

terça-feira, 25 de maio de 2010

MUSEU DE GRANDES NOVIDADES... O TEMPO NÃO PÁRA.


De partida gostaria de pedir aos meus companheiros de blog que me perdoem pelo tom um pouco ácido da escrita a seguir. Contudo, o tipo de bibliografia que tenho tido acesso não me permite mais olhar para qualquer coisa no mundo com certa ingenuidade de antes... Meu olhar acostumou-se pelo avesso, a procurar o que não está aparente. Mas que está ali e insiste em se mostrar, basta procuramos “o quê” está no lugar de cada discurso enunciado/materializado/posto diante de nós.

Já pegando um pouco a carona do cientista Mark Bernstein , em seu artigo – “Dez dicas para escrever a rede viva”, ele nos coloca a idéia de que para a rede se manter viva, em constante mudança, é preciso encontrar “bons inimigos”. Na verdade um inimigo-amigo, pelo qual muitas vezes você é provocado e discorda de muitas questões. Justamente para que no conflito, entendido por Bernstein como uma ferramenta potente, outros pontos de visão de mundo sejam postos e iluminados. Pois, de que adianta nesse espaço estabelecer um diálogo monocêntrico, onde apenas o autor do blog se coloca e, em muitas situações é reiterado por comentários egóicos, sem menor pretensão de troca/transformação daquilo posto? É a prática da interlocução, que faz essa ferramenta ter uma dinâmica de comunicação. E quem disse que comunicação se faz apenas com reiterações daquilo posto?

Assim, longe de me colocar nessa posição de “inimiga-amiga” a disparar questões polêmicas... Sinto-me, na verdade, motivada a fazer uma leitura política de muitas questões que envolvem a dança/dança do ventre, mídia e poder, com o objetivo de provocar um novo olhar sobre o fenômeno. Desestabilizar um pouco, questões aparentemente muito “naturais” e vistas como uma “norma” a seguir por muitas dançarinas-aprendizes ou até mesmo profissionais já estabelecidas no mercado. Artistas que encaminham seus fazeres artísticos apoiados por discursos que confundem arte com prática midiática, divulgação com exposição espetacular... E legitimam sua produção artística, sem ao menos se dar conta de que é mais uma “captura” dessa cultura espetacular e midiática que achata nossa produção em dança.

Um pouco de Nostalgia...

Eu fui do tempo que para aprender/fazer dança do ventre era de fato uma tarefa de sala de aula. Consistia em amadurecer, digerir a informação/movimento, até o mesmo maturar-se e tornar-se corpo. Não tinha o imperativo do apresentar-se em público. O feitio da dança tinha como condicional o aprontar-se, o processo de descobertas, sem que isso necessariamente chega-se a um produto espetacular. O que interessava era a singeleza do processo de descobrir-se e do apropriar-se da dança.

O apropriar-se significava experimentar, experimentar... sem a preocupação com o produto finalizado. E sim, com o processo de assinar sua dança, não como a música da moda, com a “roupicha da moda, etc. Mas com o seu processo de investigação, de composição da coreografia. Sem a tirania dessas senhas prontas, que fecham qualquer porta do reinventar-se, autorizar-se como co-autor de algo que sempre foi dado pelo outro, mas que no corpo torna-se singular.

Estar em sala de aula ou em workshops era a possibilidade de ser co-autor do material dado, que no seu corpo era re-editado como algo “seu” e do “outro”. Uma reapropriação como micro-bicolagens clandestinas, mas que de tanta experimentação, se tornava um novo enunciado no corpo. E não mais um enunciado de... da professora tal, da dançarina tal, etc.

Lembro que em 1996, dando aula na Escola de Dança de Antônio Cozido, o único material de aprendizagem disponível era uma fita de vídeo de Lulu Sabongi, a Arte da Dança do Ventre. Imaginem, CDs? Raríssimos. Tínhamos fitas cassetes de George Abdoo e algumas outras coletâneas de música árabe. De modo, que a nossa criatividade estava a serviço da técnica e da possibilidade de sobreviver a pouca informação em circulação. Digamos que tínhamos um cuidado muito maior em colocar nosso fazer no mundo. Tudo era movido por muita pesquisa, ensaio e pela espera de apresentar-se um dia. Roupas? Músicas da moda? Era colocado em segundo plano, uma vez que a oferta desses elementos quase não existia. Contávamos com o nosso feitio e com o processo de maturar-se, fazer-se dançarina.

O tempo não pára...

Mas você pode estar querendo me dizer, calma Márcia, hoje ainda é assim. Mas eu insisto em te provocar: será?

Hoje o que percebo é o seguinte: um encurtamento do processo de aprendizagem movido pela necessidade de apresentar-se como um produto espetacular. Todas querem o palco. Todas querem postar seu vídeo no youtube. Todas querem recheiar seus álbuns no Orkut, com as fotos da última apresentação. Todas querem...

Não que o palco seja algo sagrado, temível e destinado apenas as estrelas. Todas nós temos direito a ele. Mas quero dizer, que o processo de fazer-se dançarina não pode ter o imperativo do apresentar-se e tornar-se um produto midiático.

...
Olhe mais um vídeo no Youtube!!! Quem dá mais? Leiloamos nosso fazer artístico!!!! (desculpem-se por essa pitada de veneno)
...

Sei que o tempo não pára... e a democratização da informação é algo extremamente positivo. Afinal não sou a favor da escassez de materiais da década de 90. Mas o que hoje me inquieta profundamente é o excesso e a rapidez com que essas informações chegam ao corpo, sem que de fato tenham algum sentido ou se tenha tempo necessário para fazer-se corpo. Para que a dançarina construa a sua dança e torne-se co-autora.

Assim se por um lado, em 2010, temos todo o acesso à informação, via internet e a profusão de workshops, aulas, materiais técnicos e de aprendizagem, por outro, temos perdido a dimensão de que o acesso a informação não substitui o processo de investigação/maturação em sala de aula. Informar-se e fazer-se corpo são ações complementares e não excludentes.

O apelo midiático é tão intenso que de cara fratura a condição do artífice e do tempo necessário para fazer-se obra. Hoje não importa mais o tempo que você tem de aula, ou quem é seu mestre. O que vale é estar visível. Seja por uma web Cam, no Youtube ou no velho palco de guerra. Basta-se da visibilidade midiática como condição básica para ser dançarina. É justamente esse holofote e os aplausos da cena, que legitimam tantos nomes artísticos no nosso hall de opções. Devo discordar. E penso que, não é o palco que legitima a arte e sim o processo de fazer-se obra artística.

Aqui, permito-me usar um entendimento de George Agamben, para localizar melhor minha opinião/inquietação. Pois este cientista italiano chama a atenção para a atual fase do capitalismo que tende a transformar “tudo em um museu”. Onde o que importa é a visibilidade e a contemplação de qualquer acontecimento. De modo que tudo se torna produto capturado pela mídia.

Nossos corpos, desejos, afetos... nossa arte, nossa dança, a serviço do olhar do outro. Não mais como um acontecimento capaz de dar um outro sentido ao seu entorno. Mas como materiais a serem capturados e desativados do seu potencial de transformação. Vive-se um total achatamento dos nossos sentidos e da nossa percepção imagética.


Impera-se a banalização. Nossa imaginação foi atrofiada. O que se dizer da nossa capacidade de “religar” com os universos mais sutis? . Por onde andam os fios? Foram cortados? Tudo é passível de contemplação apenas. Mas não de transformação.

Por entre tantos museus de “grandes novidades” me pergunto: o que se faz novo ao seu entorno? Talvez nessa última questão, encontremos a solução para muitas das inquietações aqui compartilhadas.

Repensar nosso fazer artístico não apenas pela necessidade de fazer-se museu. Mas sim, pela possibilidade de levar a novidade ao entorno. Não a novidade travestida com as velhas fórmulas tão gastas pelas estrelas da dança. Mas... pela potência que a dança tem de fazer novidade no seu acontecimento, ainda que seja sem a roupa da moda, sem a música da moda... Gostaria de apostar na singeleza do corpo que dança em cena. CORPO-DANÇA SINGULAR, que não se alimenta só de aplausos, mas com a sua verdade a ser lida como uma possibilidade de autoria. A VERDADE-AUTORIA COMO CONTRA-DISPOSITIVO DE CAPTURA MIDIÁTICA. UM DESMONTE PARA TANTAS PRODUÇÕES PREMATURAS, ENTENDIDAS COMO TEXTOS ARTÍSTICOS COPIADOS DE DANÇAS SACRALIZADAS NO MERCADO.